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Quem somos depois da Kiss?

Por Débora de Oliveira
Publicado em: 11.12.2021 às 03:00

Os últimos dez dias foram de um mergulho no retrato da nossa sociedade. O julgamento dos quatro réus do incêndio da Boate Kiss não vitimou apenas 242 pessoas e deixou mais de 600 feridos. Ele causou um rombo na alma de quem tem um mínimo de sensibilidade e empatia.

E eu nem estou falando das acusações e nem das defesas, sequer sobre os alvos do processo judicial em questão, tampouco sobre a decisão após tantos enfrentamentos. Eu falo de um todo, como cidadãos, que perdemos junto com cada família o direito de um final feliz sucumbido pelo risco iminente de que tudo que é feito "com jeitinho" um dia bate de frente com as consequências.

E mesmo que minha dor como ser humano jamais possa ser comparada à de quem sofreu com as queimaduras, viveu meses em UTIs, luta até hoje com as sequelas do fatídico 27 de janeiro de 2013, sofro junto por me sentir impotente de acolhê-los. E mesmo nada que eu diga em um abraço àquelas famílias trará cada sorriso de volta da penumbra de um desespero coletivo e inimaginável.

O que mudou em nós depois da Kiss? Cuidamos mais onde estamos para saber se estamos seguros para uma saída emergente em qualquer situação inusitada? Nos comprometemos a seguir corretamente nossos deveres como acolhedores de seres humanos no ambiente que proporcionamos a vinda dessas pessoas? Estamos fiscalizando de forma mais efetiva os locais de acordo com todos os protocolos necessários? Viabilizamos nossos espetáculos de acordo com o ambiente em que eles serão apresentados? Avançamos em algum item para nunca mais vivermos tamanha crueldade?!

Quantas vítimas se acumulam diariamente pelo descompromisso de quem deve fazer tudo certo do início ao fim de qualquer coisa que talvez possa acontecer mesmo que, tomara Deus, nunca aconteça? Quem aí entende que mesmo não sendo duas centenas e meia de pessoas, se for apenas uma, já estaria sendo parte de um número que poderia ter sido evitado com responsabilidade efetiva de todas as partes?

O mundo abraçou Santa Maria porque não há um lugar sequer na cidade que não tenha lembrança daquela tragédia, nem mesmo uma pessoa qualquer que não tenha perdido alguém importante por conta de uma sequência de contratempos que "era quase impossível de acontecer", mas aconteceram.

Mas será que não devemos acolher o todo além de qualquer lugar no mapa e olhar para nosso próprio papel enquanto parte determinante de uma construção correta de condutas e ações?

Só assim talvez poderemos enxergar além da névoa de fumaça que não sai da mente de quem reviveu é entender a dor nos últimos dias, e então perceber que o primeiro passo para salvar vidas é jamais colocá-las em risco.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
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