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Opinião Artigo

Um outro olhar para o luto

Por Débora de Oliveira
Publicado em: 30.10.2021 às 03:00

O luto é uma experiência singular em nossas vidas. É quase um estado de recolhimento. Quando nos vimos diante de uma perda tudo parece desmoronar, os passos seguintes parecem não nos tirar do lugar e as emoções se misturam de um jeito que só uma palavrinha pode ajudar no entendimento e no enfrentamento de tamanha tristeza: o tempo.

Além dos fatores que influenciam a forma de lidar com o vazio de uma ausência definitiva, como: religião, relacionamento com a vítima, crenças sobre a morte... As reações diante dessa situação são individuais e proporcionais a essas interferências. Reações que vão do desespero, culpa, irritabilidade, medo... Uma depressão, uma angústia profunda.

O último estágio do luto é a aceitação. Quando a negação vira dor, depois vira saudade, depois vira lindas lembranças. É nessa fase que as pessoas conseguem compreender a nova realidade e conviver com a perda de forma que a energia possa ser reinvestida em sensações de paz ao lembrar de quem se foi. E só você pode ser o seu ponto de partida para seguir em frente, apesar do pesar.

Talvez por isso seja tão difícil superar os dias cinzas e recomeçar.

De sã consciência, todos nós sabemos da finitude do que vivemos. E mesmo tendo a certeza de que nossa existência e do outro não é eterna, por que ainda assim é tão difícil estar pronto para aceitar quando esse dia chega? Será que a dor seria mais branda se nossa conformidade fosse melhor trabalhada? Por que ainda lidamos com isso como um tabu a ser pensado somente no dia em que a despedida chega, como se pensar, conversar e refletir fosse antecipar o acontecimento?!

Dia 2 está chegando e eu não consigo ver com aquele olhar melancólico que a data nos remete. E também não preciso de um início de novembro para lembrar de quem me foi importante e será para sempre um motivo de um sorriso, por vezes mais valioso que qualquer homenagem que eu pudesse fazer a elas.

Minha avó Araci faleceu quando eu tinha 9 anos. Ela plantou uma árvore de azaleia na calçada da casa dela e todo ano ficava lindo quando florescia. Deus o livre a gente arrancar alguma, nem para vaso de flor ela deixava. A flor precisava ser contemplada, não arrancada...

Eu nem consigo imaginar tudo que teríamos feito juntas e o quanto ela teria se orgulhado de mim se Deus permitisse que ela ficasse um pouco mais. Mas uma coisa eu imagino e sei que não é da minha cabeça: toda primavera minha avó vem e diz que está tudo bem. Porque vejo a árvore dela, florida e colorida, até nos dias mais cinzas, que todo ano nessa época cruza o meu caminho em várias esquinas.

O que temos de mais valioso em nossos passos de vida é o que deixamos como marcas nos encontros com as outras pessoas. E se a lembrança que você tem de quem sente saudade é bonita, tenha certeza de que a caminhada dela foi de uma missão cumprida com louvor. Ninguém morre quando permanece vivo no coração das pessoas. Se as lembranças seguem presentes como resgate de uma presença, é porque estão eternizadas em nós. E isso é vida!


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