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Notícias | Rio Grande do Sul Dia do Trabalho

Sobrecarga e esgotamento mental: o trabalho de gestores durante a pandemia

Pesquisa, que ouviu 85 pessoas em cargos de liderança, busca compreender como a relação entre trabalho e tecnologia tem impactado a saúde mental

Por Joyce Heurich
Publicado em: 01.05.2021 às 06:00 Última atualização: 01.05.2021 às 08:36

Entre os participantes da pesquisa, 35,3% trabalhavam na modalidade home office Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Com o uso intensificado da tecnologia em meio à pandemia da Covid-19, profissionais que ocupam cargos de liderança têm sentido um aumento da sensação de urgência para as demandas de trabalho. É como se nada pudesse esperar. Boa parte passou a checar os e-mails com mais frequência, trabalhar até mais tarde, até se sentir sobrecarregado com tantas tarefas. Mas não sem prejuízos à saúde mental.

Esses foram alguns resultados de uma pesquisa realizada pelo curso de Psicologia da Universidade Feevale, que ouviu, no último ano, 85 gestores das áreas de Educação, Serviços e Comércio. As mulheres representam a maior parte do público respondente (65,9%), que está concentrado, principalmente, na Região Sul do País. Apenas 35,3% dos participantes estavam em home office, os demais trabalhavam de forma presencial no período em que o estudo foi feito.

Como resultado do estado de ansiedade e alerta constante, reforçado pelas novas dinâmicas da rotina profissional, os trabalhadores citaram os seguintes sintomas: esgotamento mental, cansaço, problemas com o sono e agitação. 

"Pessoas que ocupam cargos de liderança acabam se sentindo ainda mais pressionadas a manter uma conexão integral, tendo em vista o alto grau de responsabilidade", lembra a psicóloga Jaqueline Michaelsen Macedo, que conduziu o estudo como parte do Trabalho de Conclusão de Curso.

"Uma parcela relata que o tempo de desconexão diminuiu com esse período, pois, mesmo que o trabalhador esteja no seu local de atuação, após a sua jornada de trabalho ele ainda continua conectado. Os tempos de trabalho e não-trabalho se misturam", acrescenta.

Mais da metade dos respondentes apontou o WhatsApp como principal meio de acesso às demandas profissionais. Doutora e pós-doutora em Psicologia Social, a professora orientadora da pesquisa, Carmem Giongo, destaca a urgência em estabelecer um limite entre a vida laboral e a vida fora do trabalho, pensando na saúde dos colaboradores.

"O trabalhador, muitas vezes, está deitado na cama, antes de dormir, e recebe uma mensagem do trabalho, de um colega, de um gestor, ou está vendo conteúdos do trabalho nas redes sociais. Isso é psiquicamente como se ele estivesse trabalhando, ou seja, ele não descansa. E isso está produzindo trabalhadores adoecidos", ressalta.

 

Líderes na Pandemia
Infogram
'Menos braços, mais responsabilidade'

Moradora de Novo Hamburgo, Catiuscia Santos atua há 18 anos liderando equipes na área do varejo. Atualmente, como supervisora de operações, faz a gestão de gerentes de lojas na Região Metropolitana de Porto Alegre. Durante a pandemia, tem enfrentado o desafio de atender uma demanda maior de trabalho com equipes reduzidas. 

"A gente teve uma redução drástica de equipe, onde tu tem uma sobrecarga de trabalho para quem fica, em especial para os gestores", observa. "Menos braços, mas muito mais responsabilidade de gestão e de estratégia porque são momentos difíceis de venda, não está fácil para ninguém. Então, tu precisa do dobro de acompanhamento, do dobro de direcionamento, e com uma equipe muito menor", pontua.

Ao contrário do que se imagina, com o comércio fechado, a carga de trabalho para quem trabalha em lojas ficou ainda maior. Com as vendas pela internet, é como se o estabelecimento estivesse aberto o dia todo, disponível para atender o consumidor.

"A gente passou a vender cada vez mais pelas redes sociais, Instagram, WhatsApp, através dos canais de e-commerce. E a grande diferença desses canais é que são conectados 24 horas por dia. Então, tu tem clientes o tempo inteiro demandando, questionando, enviando mensagens", justifica.

A sobrecarga acaba sendo inevitável. E não fica restrita ao eixo profissional. Aos 40 anos, Catiuscia é mãe de quatro filhos - duas crianças e dois adolescentes. Com as restrições impostas pela pandemia, eles têm passado os dias em casa e demandado muito mais dos pais.

"Eu me vejo muitas vezes numa situação de sobrecarga, sim. Profissional, numa sobrecarga também como gestora porque eu vejo minhas equipes passando pela mesma pressão que eu tenho passado, e como mãe nem se fala, porque se não está fácil para nós, imagina para as crianças. É uma sobrecarga de todas as formas, física e mental", desabafa.

Home office

As pessoas já estão sobrecarregadas emocionalmente por conta dos efeitos da pandemia. Então, já existe um sofrimento psíquico gerado

A maioria das pessoas que estão em home office não escolheram estar em hom office, essas pessoas tiveram que se adaptar rapidamente ao trabalho em casa.

Um dos efeitos é a dificuldade de dividir a vida dentro e fora do trabalho, muitas vezes só o fato de estar com o computador no quarto, na sala, no final de semana, o trabalhador olha o equipamento de trabalho e já se sente convocado a trabalhar. A sobrecarga também está realacionada a essa indissociabilidade entre a vida dentro e fora do trabalho. 

Essa sobrecarga se intendificou

O uso de tecnologias, o acesso às telas em tempo integral, já está comprovado que ele gera um desgaste mental muito maior, sem falar no desgaste físico porque muitos trabalhadores não têm uma boa condição ergonômica em casa, como cadeiras adequadas, encosto para os pés, mãos pescoço, além de acesso a internet, telefone. Esse vários elementos desgastam os trabalhadores muito mais.

"Uma atividade que um gestor faria no trabalho presencial de modo mais rápido ou que exigisse uma energia inferior, no teletrabalho talvez ele precise se concentrar mais, exija mais tempo porque vai precisar aprender uma tecnologia, vai se sentir mais desgastado pelas telas, pela interação humana mediada pela tecnologia. 

As instituições não reduziram as demandas de trabalho, não flexibilizaram as metas, de modo geral, os trabalhadores têm relatado que a demanda de trabalho segue a mesma, o que aconteceu é que esse trabalhador está muito mais exigido, sobrecarregado, tem que lidar com muitas outras demandas emocionais, da família, dos filhos, da própria condição da pandemia e precisa ainda fazer as mesmas entregas no trabalho. Isso tudo gera uma sobrecarga imensa e gera risco muito grande de adoecimento psíquico. 

Como exemplo de doenças relacionadas a sobrecargas, a professora cita o "Burnout", que é um tipo de estresse crônico e as LER/DORTs, que são as doenças osteomusculares ligadas ao trabalho.

 

Carga horária x produtividade

Será que trabalhar mais significa, necessariamente, produzir mais? No entendimento da professora, não. Ela diz que pesquisas indicam o contrário: quando a carga horária é menor, o desempenho aumenta. É que a extensão do tempo de trabalho faz com que o profissional perca a atenção e se sinta sobrecarregado e cansado.

 

"Pensando na saúde mental dos trabalhadores, já existem estudos, e até experiências feitas em alguns países da Europa, que mostram que os trabalhadores produzem muito mais se trabalharem seis horas por dia, ou se trabalharem quatro dias na semana", cita Giongo.

"Hoje, a gente tem uma convenção de no máximo oito horas por dia, eu diria que é o máximo mesmo. A realização de horas extras para além das oito horas já vai acarretar em danos para a saúde física e mental do trabalhador", acrescenta.

E quando o trabalho é na modalidade home office, a carga horária deveria ser reduzida, defende a professora. Seis horas diárias, com um intervalo a cada duas horas.

"O trabalho mediado pelas telas, ele exige muito mais, gera uma sobrecarga muito maior, então seria muito importante considerar a redução da carga horária de trabalho para quem está em home office", ressalta.

 

Risco de adoecimento

A situação de Catiuscia é parecida com a de boa parte dos participantes da pesquisa. Resultados do estudo apontam que, na maioria dos casos, as empresas não flexibilizaram as metas, desconsiderando a situação atípica pelo qual os gestores vêm passando ao precisarem lidar com um acúmulo de pressões.

O adoecimento é consequência. Como exemplo de doenças relacionadas a sobrecarga, a professora cita a depressão, o "burnout", que é um tipo de estresse crônico, e as "LER/DORTs", que são as doenças osteomusculares ligadas ao trabalho. A prevenção, para Carmem, passaria por um olhar mais cuidadoso por parte das empresas.

"Os gestores estão muito expostos, precisam ter um olhar para eles, espaços de fala dentro das organizações, de escuta, de saúde mental dentro do trabalho, porque eles têm todas as atividades que ele já tinha, mais a gestão dos efeitos da pandemia nas suas equipes, mais lidar com o estresse pessoal gerado pela pandemia", avalia.

A importância do ócio e da desconexão

 

"O processo de criação está muito relacionado ao descanso, um trabalhador que trabalha incessantemente, por várias horas, provavelmente vai ter capacidade criativa e de resolução de problemas muito menor. Até o fato de ter uma vida, de olhar filme, de conseguir descansar, de praticar esporte"

 

O idela seria que trabalhadores tivessem jornada reduzida de trabalho que pudessem dedicar tempo ao convívio com a família, os amigos, atividades de estudo de pratica de exercicio físico e, até mesmo, de ócio.

"Não fazer nada é um fator muito importante para a saúde. Hoje, a gente vive numa sociedade onde até no tempo de folga você é estimulado a produzir, a consumir, a usar o tempo de maneira criativa, e a gente vem trabalhando cada vez mais a necessidade de ter tempo livre, de vivenciar o ócio", observa.

 

Como forma de atenuar o desgaste dessas conexões cada vez mais intensas, a docente orienta que os trabalhadores estabeleçam períodos de descanso sem acesso aos conteúdos de trabalho.

Ela indica, ainda, que as pessoas disponham, se possível, de um número de telefone apenas para o trabalho para auxiliar na divisão dos assuntos pessoais com os laborais.

“É necessário, também, que as empresas incentivem e criem políticas claras de desconexão, evitando demandar as equipes em tempo integral. Períodos de descanso e desligamento total de assuntos relacionados ao trabalho são essenciais para a saúde no trabalho”, finaliza.

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