Publicidade
Botão de Assistente virtual
Notícias | Região EDUCAÇÃO

Faltam professores nas escolas e desvalorização da carreira é um dos fatores

Nas universidades comunitárias, responsáveis pela formação de boa parte dos profissionais na região, o número de alunos está em queda há anos

Por Matheus Chaparini
Publicado em: 02.07.2022 às 07:00 Última atualização: 02.07.2022 às 09:32

Há uma vaga aberta para professor em uma escola estadual da região. A direção entra em contato com a Coordenadoria Regional de Educação, responsável por contratar e encaminhar os docentes. Sem concurso público desde 2012, os candidatos são chamados a partir de um edital de contratação emergencial. Muitas vezes, a vaga não é preenchida. O profissional não responde no prazo ou já não tem mais disponibilidade para trabalhar.

Em Canoas, de turma com 25 alunos, só um quer ser professor, situação comum hoje em dia
Em Canoas, de turma com 25 alunos, só um quer ser professor, situação comum hoje em dia Foto: Paulo Pires/GES

A situação é semelhante nas redes municipais de ensino e já começa a se apresentar como realidade também nas escolas particulares, e revela uma situação preocupante no ensino: o apagão de professores.

Essa escassez se mostra desde a base, na formação dos futuros professores. Nas universidades comunitárias, responsáveis pela formação de boa parte dos profissionais na região, o número de alunos está em queda há anos. E a redução é maior nos cursos de licenciatura, de onde saem docentes para os ensinos Fundamental e Médio. Os jovens que ingressam nas universidades buscam cada vez menos estes cursos.

Mas afinal, o que afasta as novas gerações da carreira de professor? Uma breve conversa com os alunos do Ensino Médio dá pistas desta resposta. Em uma sala de aula do segundo ano de uma escola estadual de Canoas, de 25 alunos, apenas um quer ser professor.

Andressa de Souza, de 17 anos, aluna da Escola André Leão Puente, já quis seguir a carreira docente, chegou a fazer magistério, mas não teve boas experiências em sala de aula. "Queria muito ser professora, sempre foi meu sonho, mas hoje eu estou em dúvida", diz. "É uma profissão que não é muito valorizada. Acredito que a maioria não queira seguir uma carreira em que se trabalha tanto para ganhar tão pouco", especula sua colega Maria Eduarda Arvelino, 17.

Estímulo à carreira

Para especialistas em Educação, com experiência na formação de docentes, a resposta está em um conjunto de fatores que incluem aspectos ligados à desvalorização financeira da carreira, à falta de políticas públicas.

O professor Roberto Rafael da Silva, da Pós-Graduação em Educação da Unisinos, divide estes fatores em dois grupos, os exógenos e endógenos em relação à universidade. No primeiro, estão questões como a falta de políticas públicas que tornem mais atrativa a carreira.

"Não há reconhecimento social da profissão e, em geral, são profissionais mal remunerados. Envolve políticas públicas de indução dos professores e programas de acompanhamento de recém-formados, de longa duração, porque há muitos professores que se formam, ficam pouco tempo e abandonam."

Em relação ao segundo grupo, Silva destaca que não se trata apenas de uma responsabilidade das universidades, mas da política de formação de professores no País. Ele avalia que há poucos processos de modernização dos cursos de licenciatura, que não dão conta das demandas da escola do século XXI.

Silva aponta a necessidade de criação de cursos com novos formatos e percursos de formação. Um exemplo sugerido é a criação de licenciaturas interdisciplinares para áreas como as ciências naturais.

Déficit na formação

Se todos os professores em idade para se aposentar decidissem encaminhar o fim da carreira, o Rio Grande do Sul não teria novos profissionais para suprir estas vagas. A constatação é da pró-reitora de Ensino da Universidade Feevale, Angelita Gerhardt, com base em dados do Inep, instituto ligado ao governo federal, que mostram que há muito mais professores em idade de se aposentar do que novos formandos em cursos de licenciatura.

Angelita avalia que o apagão docente é um problema complexo, que está relacionado a uma série de fatores, como a baixa perspectiva financeira da carreira e o custo da formação.

"A carreira não gera incentivo em termos salariais e a gente não tem mais financiamento público para o ensino superior desde 2018, com a extinção do Fies. Ou o jovem paga a faculdade sozinho - e com uma remuneração baixa, ele não consegue fazer esse pagamento - ou ele tem que ter outras formas de financiar sua formação."

Angelita defende uma remodelação no plano de carreira do magistério estadual que torne a carreira de professor do ensino público competitiva em relação à iniciativa privada e a outras profissões que exigem formação de nível superior.

Há 15 anos, a Feevale mantém uma parceria com universidades da Finlândia, país que é referência mundial em Educação. Está em andamento uma formação em mentoria docente, para um grupo de 70 professores, que serão multiplicadores.

A pró-reitora destaca que por lá os cursos que formam professores estão entre os mais disputados. "O salário lá é maior que a média salarial de médico, por exemplo. Para estar em sala de aula, além da graduação, tem que ter um mestrado."

Demanda por português e matemática

Na rede estadual, a maior dificuldade está nas disciplinas de português e matemática, e foi agravada neste ano, com a mudança na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que ampliou a carga horária destas matérias no Ensino Médio. "É uma rotatividade sem tamanho. O professor vai procurando onde é melhor para ele e a gente veste um santo desveste o outro", afirma a coordenadora de Recursos Humanos da 2ª Coordenadoria Regional de Educação, Maria José dos Reis.

Ela acredita que os jovens que ingressam no nível superior acabam optando por outras profissões, com melhor perspectiva financeira. "As faculdades oferecem os cursos, mas as pessoas não estão buscando."

Paradoxo em Novo Hamburgo

Em Novo Hamburgo, o déficit de docentes é considerado pequeno. São cerca de 2,3 mil professores nas 90 escolas e faltam 20. No entanto, a rede municipal vive um paradoxo em relação à contratação.

"Por um lado, quando a gente faz concurso ou chamamento para contrato emergencial, a gente tem muitos candidatos. Foram mais de 3 mil candidatos no contrato emergencial de 2021 e eram cerca de 100 vagas para suprir os aposentados. Por outro lado, este ano, estamos chamando os aprovados e muitos não assumem. Muitos deles já estão trabalhando em outro local. E veja bem, o salário base aqui é um dos maiores da região", afirma a secretária Maristela Guasselli.

O salário inicial dos professores de Novo Hamburgo é R$ 2.453,07, para 20 horas, e R$ 4.906,12 para 40 horas. De acordo com a secretária, a maioria dos professores da rede não mora no município.

Outro fator é a mudança de concurso. Alguns professores que foram aprovados em um processo de 2011, que foi alvo de questionamentos judiciais, acabam passando por nova seleção na própria rede, sendo aprovados e pedindo exoneração no vínculo anterior, em função do maior salário.

Há problemas também na formação, aponta secretária

Além da dificuldade para contratar professores e estagiários, outra dificuldade observada pela secretária de Educação de Campo Bom, Simone Schneider, é a baixa qualidade da formação de alguns profissionais. Na sua avaliação, fruto de uma oferta cada vez maior de cursos a distância oferecidos abaixo do preço, por universidades pouco conhecidas e que em muitos casos não oferecem qualidade na formação, sem prática pedagógica ou estágio obrigatório. Assim, o estudante se forma em pouco mais de dois anos sem qualquer experiência em sala de aula.

"A gente está recebendo professor que tem uma formação de cursos de graduação lá de São Paulo, universidades em que nunca se ouviu falar. Ele não tem uma vida prática de ser professor e está chegando nas nossas escolas. Estamos tendo que dar um passo ou dois atrás, tendo que fazer um be-a-bá, quase uma cartilha, para dizer o que é um objetivo, como fazer um plano de aula", afirma.

Todos os anos, o município abre duas seleções para estágio remunerado, em janeiro e outubro. No primeiro semestre deste ano, já foram abertas três seleções, em função da baixa procura pelas vagas. "Na última, tivemos seis inscritos, porque limitamos nossa abrangência, valorizando o profissional que estuda na região."

A rede municipal tem cerca de mil professores. No momento, a maior dificuldade é de professores de Inglês e Música. A secretária explica que foi feito um remanejo de profissionais para suprir a falta de professores em sala de aula. Em consequência, ficaram faltando profissionais em outras áreas, como reforço e contraturno.

Envelhecimento dos professores

O número de professores na educação básica no RS está em queda desde 2015, quando havia 120.725 docentes. Até 2021, o número caiu para 113.472 (veja abaixo).

Os dados são de levantamento do Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (Comung), com base em dados do Inep, instituto ligado ao governo federal. O levantamento mostra um aumento no número de docentes atuando no ensino básico de 2010 até 2015, quando os números começam a cair.

O trabalho faz ainda um recorte por idade, que mostra o envelhecimento dos professores que estão em sala de aula.

O número de professores com 50 anos ou mais cresce ano após ano, saindo de 20.845, em 2010, para 29.258, em 2021. Já o número de docentes mais jovens está em queda.

Docentes educação básica

Apagão se aproximatambém da escola particular

Com melhores condições de remuneração e valorização dos profissionais, o ensino privado ainda não encara a escassez de docentes com tanta intensidade. No entanto, de acordo com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Privado do RS (Sinepe), o problema já começa a bater na porta de escolas de municípios do interior, mais distantes dos grandes centros urbanos, onde estão as universidades.

"Olhando para a prática, existe realmente um apagão de professores na escola pública. No ensino privado, esse apagão se manifesta principalmente no interior, em algumas disciplinas. Hoje é difícil contratar professores de química, física e matemática, por exemplo", afirma o vice-presidente do Sinepe, Oswaldo Dalpiaz.

Falta de reconhecimento social da profissão

Presidente em exercício do Cpers, sindicato que representa os professores da rede estadual, Alex Saratt elenca quatro fatores que afastam os jovens da docência: salário, carreira, falta de concurso público e falta de reconhecimento da profissão. Em relação a este último, ele cita o período da pandemia, em que os professores tiveram de se adaptar a novos aspectos tecnológicos para o ensino a distância e híbrido.

"Nunca os professores trabalharam tanto, isso que é bastante comum termos colegas que cumprem 60 horas de jornada semanal. Mas veio a pandemia e uma série de exigências, tanto de atualização de professor como de acompanhamento de alunos que não vinham tendo desenvolvimento cognitivo adequado ou evadiram, e o que ouvíamos de parte significativa da sociedade? Que os professores estavam ganhando sem trabalhar", afirma.

Para Saratt, é comum ouvirmos pronunciamentos que "tentam desfigurar o nobre ofício de educar". Ele cita um exemplo pequeno, porém significativo em relação ao reconhecimento social: um professor com doutorado muitas vezes não é chamado de doutor, enquanto outros profissionais, apenas com a formação básica, recebem este tratamento. "É uma coisa que denota essa visão da sociedade em relação ao professor", entende.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.