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Notícias | Região TRENSURB

Conheça um piloto de trem com quase quatro décadas de experiência sobre os trilhos

Ag-Hur da Silva conta percepções e experiências vividas dentro da solitária e silenciosa cabine de operação

Por Eduardo Amaral
Publicado em: 02.07.2022 às 07:00 Última atualização: 02.07.2022 às 15:13

Diariamente, cerca de 110 mil pessoas deslocam-se entre Novo Hamburgo e Porto Alegre pelos 43,8 quilômetros de trilhos da Trensurb. Os primeiros passageiros subiram nas composições no dia 2 de março de 1985.

Logo após a viagem oficial com as autoridades foi feita a primeira viagem com passageiros regulares, inaugurando assim o novo modal. Há dez anos, em 3 de julho de 2012, os trens chegaram a Novo Hamburgo com a inauguração da Estação Santo Afonso. No mesmo dia São Leopoldo também inaugurou uma nova estação, a Rio dos Sinos. Atualmente, são 22 estações em seis cidades da Região Metropolitana.

Da cabine, o condutor percebe as mudanças das cidades ao longo dos trilhos
Da cabine, o condutor percebe as mudanças das cidades ao longo dos trilhos Foto: Paulo Pires/GES
Para lembrar a data, o ABC começa uma série de três reportagens que vão contar histórias de personagens que têm seu dia a dia diretamente ligado ao trem.

Na carona de Ag-Hur

A reportagem pegou uma carona com um operador do trem, Ag-Hur da Silva, 60 anos, que é o primeiro personagem dessa série. Ele esteve no primeiro dia de operação do novo modal de transporte. "Eu fiz a primeira viagem só com passageiros, a viagem inaugural com as autoridades foi uma colega minha que fez, mas logo depois fui eu, da Estação Mercado até Sapucaia", lembra o operador, que em novembro completa 38 anos como funcionário da empresa. "Eu dizia que com 55 eu ia parar, mas daí chegou perto e resolvi alongar", conta ele, que diz que agora pensa realmente em se aposentar. "A gente tem que preparar a cabeça antes de parar."

Ag-Hur da Silva é operador de trem há quase 38 anos
Ag-Hur da Silva é operador de trem há quase 38 anos Foto: Paulo Pires/GES
Nesses quase 40 anos como piloto de trem, Silva viu da cabine das composições a mudança urbana nas cidades que cresceram no entorno dos trilhos que passam por Porto Alegre, Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Novo Hamburgo. "A gente viu a mudança das cidades, Sapucaia por exemplo, quando começamos a operar era tudo campo, e agora é uma cidade urbanizada", lembra ele.

Sapucaia é um dos lugares dos quais Silva guarda lembranças. "Era o nosso ponto de encontro antes da linha ampliar, a gente tinha contato com vários usuários, amizade passageira como a gente chamava", lembra um dos mais antigos dos cerca de 1,1 mil funcionários da empresa.

As primeiras viagens

Em 1984, Silva trabalhava como eletrotécnico quando veio o anúncio do concurso para contratação dos primeiros funcionários da empresa recém-criada. Ele então decidiu pedir demissão e prestou concurso para ser um dos pilotos dos novos trens, que sequer estavam em funcionamento e eram uma novidade para o morador de Guaíba. Os primeiros treinos foram no Rio de Janeiro, enquanto as obras de instalação eram finalizadas no Rio Grande do Sul.

A experiência segue viva na memória dele, que diz ter gostado muito da cidade "para visitar". Lá pilotou a linha que partia da Estação Deodoro, e lembra do susto de ver pessoas em cima dos trilhos no caminho, além dos trajetos estreitos.

Voltando para solo gaúcho, ele foi conhecendo aos poucos a nova linha que atenderia os passageiros, inicialmente até Sapucaia do Sul. Tudo estava sendo finalizado quando um dia um superior entrou na cabine e lançou para ele um desafio. "Ele entrou no trem e disse: 'vamos para Sapucaia'. Eu não conhecia nada do trecho e ainda estavam fazendo a instalação do sistema", lembra o operador.

Os comandos dos trens série 100, que hoje são conhecidos como os trens velhos, não eram novidade para ele, mas o trajeto ainda em obras era totalmente desconhecido. "Já sabia comandar o trem, mas nunca tinha ido para aquele lado, não sabia onde estavam as máquinas, mas vim tranquilo", lembra ele, que precisou voltar sem ninguém ao lado.

Um lugar silencioso

O dia a dia como operador é bastante silencioso para Silva, que passa a maior parte do tempo de trabalho isolado na cabine. "É mais solitário, mas ao mesmo tempo isso é um atrativo. É um trabalho silencioso, calmo, tranquilo."

Mas toda essa tranquilidade também pode ser uma armadilha, por isso ele diz que a principal virtude de um operador é a atenção. "O mais importante, e difícil, é que tem que manter o foco e estar sempre ligado", mas mesmo com sua experiência o próprio operador conta que já teve seus momentos de distração. "Eu já passei por estação, por isso tem que estar sempre atento", lembra ele.

A pequena cabine, onde os sons externos praticamente não entram, fazem o trabalho parecer tedioso para quem está acostumado a um ritmo de trabalho mais agitado e barulhento.

O contato com os passageiros é quase inexistente, mas não impede que alguns disparem xingamentos ao operador. "Uma vez uma senhora veio até aqui em frente e ficou me xingando", lembra. No caso, a passageira entrou correndo e a porta fechou deixando a bolsa dela do lado de fora, até a estação seguinte. "Ela veio na frente da cabine e começou e me chamar de burro e outras coisas", relembra ele, pontuando que disse à mulher que ela tentou entrar quando o sinal sonoro já havia disparado, correndo o risco.

Um acidente mais sério, que é outra lembrança desagradável, foi quando um usuário caiu em frente à composição pilotada por Silva. "Fiquei triste, chocado, mas não soube depois como ele ficou", diz, lembrando que não teve como reagir a tempo de evitar o acidente.

Lembranças boas e ruins fazem parte de qualquer trabalho, mas Silva faz um balanço positivo do seu tempo como piloto de trem. "Sei lá quantas mil voltas eu fiz nesses anos. Eu nunca pensei em fazer outra coisa da vida."

Importância do modal

Morador de Guaíba, Silva viaja todos os dias até Porto Alegre para, de lá, começar a trabalhar e lembra de como o trânsito na BR-290, que conecta as duas cidades, é carregado. "Eu já fiquei preso na ponte várias vezes", relata em referência à ponte do Guaíba.

Justamente por conhecer bem as dificuldades impostas pelo trânsito, que Silva destaca a importância do modal. "Pensa como seria se todas essas pessoas se locomovessem de carro ou de ônibus? Imagina quantos usariam o carro se não fosse o trem", reflete o operador, que diariamente pode olhar para o lado e ver os engarrafamentos na BR-116, principal via de acesso entre Novo Hamburgo e Porto Alegre.

Da cabine o condutor pode também acompanhar o movimento na BR-116
Da cabine o condutor pode também acompanhar o movimento na BR-116 Foto: Paulo Pires/GES
A viagem entre as duas cidades leva em torno de uma hora com o trem, o qual, se não apresentar problemas, leva em torno de dois minutos entre cada estação, com exceção do trecho entre as estações Unisinos e Sapucaia, onde o deslocamento é um pouco maior.

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