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Multimídia | Vídeos PRESERVAÇÃO DA CULTURA

Língua materna depende dos falantes para sobreviver

Sem estímulo à prática da língua mãe, ao longo dos anos comunidades perdem sua identidade cultural

Por Débora Ertel
Publicado em: 25.02.2022 às 20:26 Última atualização: 27.02.2022 às 16:36

Riozinho é uma pequena cidade no Vale do Paranhana, com menos de 5 mil habitantes, conhecida por suas belezas naturais e com uma área territorial maior que Novo Hamburgo. Outra curiosidade do lugar é que lá se fala, ao menos, cinco línguas. O município tem comunidades formadas pelos imigrantes italianos e poloneses e duas tribos indígenas, além de remanescentes da colonização alemã.

Família Smaniotto, quando se reúne, gosta de jogar conversa fora praticando a sua língua materna: o italiano
Família Smaniotto, quando se reúne, gosta de jogar conversa fora praticando a sua língua materna: o italiano Foto: Débora Ertel/GES-Especial

Na localidade de Baixa Grande, cerca de 15 quilômetros da área central, vive a professora aposentada Margarida Maria Iaronka, 71 anos. Morando com o filho e a neta no local conhecido como terra dos poloneses, diariamente, antes das refeições, Margarida repete as orações que aprendeu com os pais. É o Pai-nosso, Ave-maria e Glória ao Pai em polonês. Mas ela não esconde a preocupação sobre o futuro da sua língua materna. "Se não tiver quem ensine, vai terminar o polaco." No sentimento de Margarida, é uma questão de tempo para que a língua aprendida no convívio familiar desapareça.

Para manter viva

Na tentativa de inverter a tendência de morte das identidades locais e tradições, foi sancionada nesta semana a lei que institui o Dia Estadual da Língua Materna e das Línguas e Culturas Locais no Rio Grande do Sul. A data escolhida para a comemoração é o 21 de fevereiro, mesmo dia em que é lembrado o Dia Mundial da Língua Materna. A proposta é do deputado Elton Weber, de Nova Petrópolis, e surgiu a partir de uma proposição do Projeto Hunsrik Plat Taytx, iniciativa que busca manter viva a língua que se firmou entre os imigrantes alemães. 

Assista aos moradores falando em sua língua mãe:

Fé como forma de manter o costume

Margarida mora na comunidade polonesa
Margarida mora na comunidade polonesa Foto: Débora Ertel/GES-Especial
Margarida sempre viveu na Baixa Grande, curiosamente uma das regiões mais altas da cidade. Com os dois avôs poloneses, aprendeu a falar português apenas quando foi para a escola. Viúva com três anos de casamento, fez questão de manter a tradição da fé católica rezada em polaco com os filhos. Hoje, um dos poucos momentos em que ainda exerce a língua materna em grupo é ao final da missa de domingo na Capela São José. Os cantos tradicionais têm sido entoados com maior frequência para que os mais jovens também aprendam. "A gente fala pouco. Tem palavras que às vezes me esqueço. Mas a oração, tem que ser em polonês", comenta.

"É básico e científico que a língua é feita pelos falantes. São eles que decidem o destino da língua", salienta a doutora em filologia românica e professora de Linguística Aplicada da Unisinos, Dorotea Kersch. Por isso, quanto menos se fala, mais chances de uma língua morrer.

As rodas de conversa em família que mantêm viva a língua

Na família Smaniotto, aquele ditado de que a língua corre solta, se materializa à medida que os parentes vão chegando. A formação étnica de Riozinho tem 80% de italianos, 10% de alemães, 5% de poloneses e 5% de indígenas. Por isso, não é difícil encontrar quem fala o italiano. Agenor Smaniotto, 85, e Erica Smaniotto, 84, completaram 60 anos de casados na sexta-feira (25).

Falantes ativos da língua materna, vivem com a filha Rosa Maria dos Santos, 56. Agricultores aposentados com cinco netos e um bisneto a caminho, viveram até pouco tempo atrás na localidade de Quilômetro 45. O casal de idosos acredita que o italiano terá uma sobrevida em Riozinho. "Eu queria que durasse. Por isso temos que falar para não perder", diz Erica.

A secretária municipal de Assistência Social, Liamara Pretto, é sobrinha dos dois e gosta de visitar os tios para conversar. "Como perdi meus pais, eu adoro vir aqui conversar com eles. Lamento que meus filhos não falem o italiano", fala.

Liamara acompanha os discursos do papa Francisco e diz que se esforça em entender o italiano do Pontífice, mas é difícil. "Eu sei que nós falamos um italiano diferente", assinala.

A professora Dorotea concorda com Liamara. Conforme a docente, cada língua pode ter diferentes variedades e todas essas alterações, que acontecem ao longo do tempo, também estão certas porque atendem determinados propósitos. "Quando se fala em dialeto, em vez de língua, as pessoas começam a pensar que falam errado. Na verdade o que existe é uma variação da língua de origem. E essa língua também tem valor", explica.

Sem outros falantes para praticar, a língua materna cai no esquecimento

O produtor rural Edson Bloss, 56 anos, tem certeza que a sua língua materna irá desaparecer. Ele aprendeu a falar o alemão com os pais. Na família de oito filhos, raramente se ouviam palavras em português. "Falar em alemão era o natural", lembra.

Hoje, ele diz que pratica pouco e a língua materna é falada quando se lembra dos falecidos ou na hora de fazer piadas. "Porque em português não tem a mesma graça", explica. Casado com uma descendente de polonês e pai de duas filhas, se queixa da falta de parceria para praticar e também estimular o idioma. "Aqui na região tem pouco alemão. Eu sinto falta de falar, porque isso está no meu sangue, pois essa é a língua mãe", desabafa.

Idioma guarani prevalece dentro da aldeia Pindoty

Cacique Karai zela pelo ensino e preservação do guarani,  na aldeia Pindoty, mas teme a influência da tecnologia
Cacique Karai zela pelo ensino e preservação do guarani, na aldeia Pindoty, mas teme a influência da tecnologia Foto: Débora Ertel/GES-Especial
Próximo ao Quilômetro 45, há 15 anos os guaranis estabeleceram a aldeia Pindoty. Lá vivem sete famílias que se comunicam no idioma indígena durante todo o tempo. Embora todos sejam bilíngues, o português só é falado quando um visitante chega ao local. Conforme a professora Dorotea, os índios é que têm melhores condições de conservar e levar adiante a língua materna porque vivem em comunidades fechadas, sem contato constante com outras línguas.

O cacique Felipe Oscar Brizoela (Karai), 52, concorda com a docente, mas declara estar com medo do futuro. Segundo Karai, o ensino do guarani começou a ser ameaçado há 30 anos. "Isso porque temos morado mais perto da cidade e existe muita tecnologia", analisa.

Por mais que exista uma escola dentro da aldeia, livros em guarani e a conversa em casa seja na língua materna, a comunicação no celular, presente principalmente entre os jovens, é em português. "Ninguém vai mandar mensagem escrito em guarani", diz. O cacique destaca que além de fazer parte da identidade do seu povo, a língua é parte importante na espiritualidade. Riozinho ainda tem outra aldeia, a Mbyá-guarani, na localidade de Campo Molhado.

Cartazes com orientações têm versão em português e também no idioma indígena
Cartazes com orientações têm versão em português e também no idioma indígena Foto: Débora Ertel/GES-Especial

O incentivo ao bilinguismo deve começar desde a infância

Dorotea Kersch
Dorotea Kersch Foto: Divulgação
Até a década de 1960, havia a crença de que uma segunda língua atrapalharia o desenvolvimento da comunicação, em especial das crianças. Conforme Dorotea, os estudos mostraram que isso não é verdade, pois o cérebro vai construindo seu repertório linguístico para cada língua e isso ajuda no momento de construir o pensamento. Por isso, as crianças têm uma grande capacidade de aprender diferentes idiomas. "Quantos pais deixaram de ensinar a língua materna aos seus filhos porque eles começaram a ir na escola e acharam que isso atrapalharia", avalia.

Sendo assim, ela ressalta que é urgente os mais jovens também praticarem a língua e ensinarem para as crianças, se querem manter o que aprenderam ainda vivo. "É preciso fazer coisas com a língua. Rodas de conversas e encontros de família são sugestões", aponta.

Por isso, iniciativas como do Projeto Hunsrik Plat Taytx e o ensino do Hunsrik (dialeto alemão), que ocorre em algumas escolas da região, são bons exemplos. No Brasil, existem falantes de cerca de 220 línguas indígenas e de imigração.

A professora diz que o uso da língua sempre vai partir da vontade dos falantes e não pode ser imposto por ninguém. Sobre isso, Dorotea analisa como contraditória a declaração que se tornou comum entre aqueles que aprenderam a língua materna. "O pessoal diz: a gente tem que preservar. Mas quando questionados se falam com seus filhos, a resposta é não", finaliza.

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