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Notícias | Região Natureza profeta

Como a construção da casa de um joão-de-barro previu a estiagem que assola o RS

Biólogo explica que o comportamento da fauna pode ser um forte indicativo sobre as variáveis climáticas; segundo a MetSul, fevereiro e março ainda serão meses com escassez de chuva

Por Jauri Belmonte
Última atualização: 14.01.2020 às 10:30

Animal construiu o ninho em julho do ano passado no topo de um poste de concreto Foto: Édio Pedro Simon/Especial

No início da última primavera, a edificação de uma casinha de um João-de-Barro no topo de um poste, na praia de Albatroz, em Imbé, chamou a atenção de um agricultor aposentado e que reside nas proximidades. Na época, Édio Pedro Simon, 62 anos, já previa um verão escaldante, como é o habitual da estação e, porque não, seco e com poucas chuvas, como vem acontecendo. Antes mesmo da MetSul Meteorologia apresentar o seu veredicto, talvez ele já tinha a certeza de que a estiagem seria o pesadelo de muitos, inclusive, produtores rurais. Mas aí você se pergunta: como assim?  

Verdade ou não, o fato é que o seu Édio tinha razão. O 'barreirinho' - como é conhecido o joão-de-barro em algumas regiões, acertou na previsão, construindo o seu abrigo da forma mais segura possível. Segundo ele, que hoje é marisqueiro na ativa e amante da meteorologia, o joão-de-barro construiu a casinha dele no sentido Tramandaí-Capão, sentido do qual viriam as chuvas. "Ele construiu a casinha em julho de 2019, ainda no período do inverno, com a portinha virada para o sentido Norte, de onde geralmente vêm as chuvas de verão. Foi aí que pensei: teremos um longo período de estiagem, pois o passarinho está prevendo a chuva vinda do Sul", explica o morador.

Ainda que a percepção do senhor nascido e criado na zona rural tenha partido do conhecimento impírico sobre a causa, o fato é que natureza e clima caminham juntos. "Desde cedo trabalhei na lavoura com meu pai, quando morávamos entre Rolante e Santo Antônio da Patrulha, e ele sempre dizia: pode contar que, quando o joão-de-barro monta a casinha com a abertura virada para o Sul, a chuva virá do Norte, e vice-versa", relembra, acrescentando que o seu grande sonho sempre foi estudar meteorologia.

O morador acredita que a hora que o vento Sul enfraquecer, a frequência de chuvas vai normalizar na região. "A chuva está mais concentrada no Norte e o nosso Estado está afetado, a maior prova são os produtores de milho e soja sofrendo com a estiagem. Com o conhecimento que tenho, acredito que o inverno será afetado com temperaturas não tão baixas, pois será nessa estação que teremos um acumulado maior de chuvas", fala.

No Sabe-Tudo

Sabe-Tudo Jornal NH Foto: Reprodução

Em 25 de setembro do ano passado, a situação chamou a atenção do seu Édio, que ele fez contato com a reportagem e o fato foi ilustrado na página do Sabe-Tudo.

Palavra do biólogo

Ainda que peça cautela, o biólogo Jackson Müller explica que o comportamento da fauna pode ser um forte indicativo sobre as variáveis climáticas. "Afirmar que teria relação direta poderia ser uma temeridade. Por vezes as chuvas torrenciais podem vir de outras regiões ou, também, alterar seu regime por varios outros fatores. Os passaros, por exemplo, constroem seus ninhos ou moradias observando as condições da natureza", disse.

Para Müller, observar o comportamento de outras espécies passaros e animais possibilitaria confirmar ou nao essa perspectiva. "As plantas nos periodos de estiagem crescem menos, por exemplo, da mesma forma que o frio ou calor também podem interferir", frisou.

O que diz a MetSul

Conforme a meteorologista da MetSul, Estael Sias, não há nenhum fenômeno que indique este longo período de estiagem no Rio Grande do Sul, mas existem indicativos que explicam o atual momento climático. "Não temos um fenômeno que possamos dar nome como El Niño e La Niña, mas a questão é que estamos em um período de neutralidade climática. Diante disso, das quatro regiões do Oceano Pacífico que analisamos, o indicativo que temos passa pela região leste (1+2), que é a mais próxima à América do Sul. Nessa região se teve uma primavera mais fria que o normal e isso favoreceu as ondas de frio tardias e, consequentemente, chuvas irregulares e um prognóstico de estiagem", disse. 

Situação preocupa

Estael ressalta que a tendência é que os próximos meses serão de estiagem, o que pode agravar a situação. "O cenário começou a se desenhar para uma estiagem longa a partir da segunda quinzena de novembro. Tivemos ondas de calor, redução nos volumes de chuva, e, sem contar, um fim de dezembro escaldante. Isso trouxe um cenário de teremos pouca chuva, o que pode agravar mais ainda a situação que temos agora", concluiu.

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