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As insanas maquinarias de Luciano Wieser

Grupo "De Pernas pro Ar" cria autômatos e geringonças 'steampunk' , ator acaba de conquistar a Avenida Paulista ao devolver o sopro da vida a quinquilharias de briques e ferros-velhos Reportagem: Jeison Silva

Wieser recolhe materiais em ferros-velhos e transforma em maquinarias Foto: fotos Txai Durigon Wieser/divulgação
Os objetos esquecidos têm vida própria. Peças e quinquilharias, nos briques e ferros-velhos por aí, despertam do sono e confessam os mais secretos desejos ao inventor maluco Luciano Wieser, 53. O ator do Grupo canoense “De Pernas pro Ar” toma nos braços cada uma dessas prisioneiras do passado para libertá-las do tempo.

No atelier, localizado no bairro Igara, a magia do teatro termina por devolver-lhes movimento e alma. Repare nas asas mecanizadas: difícil não lembrar do projeto do Aeroplano de Leonardo Da Vinci, cuja inspiração, no século XV foi a aerodinâmica do esqueleto de um morcego. “A ideia das asas surgiu para mim de dois braços de luminária, eu enxerguei nelas o bater das asas e trabalhei a parte mecânica”, conta Wieser. “A coerência do trabalho foi se criando, cada peça que eu inventava incorporava algo do corpo humano.” As asas são apenas um item entre as dez máquinas improváveis do novo trabalho da trupe, intitulado “A última invenção”. No canal do You Tube “Grupo de Teatro De Pernas Pro Ar”, o leitor pode conferir, não apenas as maquinarias em funcionamento, mas todo o processo de planejamento e confecção.


Trinta e um anos de estrada já levaram o De Pernas Pro Ar para palcos de todo o país, mas a última fronteira conquistada é o Itaú Cultural, no coração de SP, que chancelou a jornada de experimentações iniciada em Canoas. De 12.500 projetos inscritos, só 109 foram contemplados pelo Programa Rumos, entre eles o “nosso”. Além do apoio financeiro para desenvolver por um ano uma dramaturgia inventiva, os teatreiros garantiram um lugar entre os nove grupos que participaram da mostra “O Tempo das Coisas – Mostra Rumos Itaú Cultural 2017-2018”, entre 4 de outubro e 3 de novembro, no icônico prédio cultural da Avenida Paulista. Realizaram performances e colheram elementos para uma nova peça de teatro (ainda sem data para estrear). “Também somos consumidores de arte, SP com seus grupos de teatro, é rica de inspiração para a gente”, avalia Wieser. “A gente é muito reconhecido lá desde o espetáculo Automákina, acho que hoje somos mais conhecidos fora que no nosso próprio Estado. É uma realidade.” O De Pernas Pro Ar garantiu até uma participação no Programa Metrópolis da TV Cultura, que também pode ser conferida online.


Enquanto não fecha o roteiro e a dramaturgia, o que já se “manifestou” para Wieser sobre as peças da exposição de Sampa - e sobre a alma do personagem principal - de a “A última Invenção” é que “o inventor não sabe mais as serventias de suas criações. Prefere vagar por aí... deixando escapar memórias e vontades adormecidas. Quiçá as memórias evocadas por estas máquinas não sejam as mesmas deste inventor, que já não se reconhece”.


O grupo se prepara agora para voltar para casa em Canoas. Planeja dois dias de apresentações em Canoas deste mesmo trabalho apresentado no Sudeste. Para agendamentos de grupos para 21 de novembro o telefone é o 51-996748082. Em 22 de novembro, às 20 horas, é aberto ao público em geral. O endereço da sede dos teatreiros é Rua Itaparica, 38, bairro Igara.

O circo no DNA

“Eu, desde pequeno, sempre construí coisas”, recorda Wieser. “Tenho lembranças felizes da infância, meu pai dava espaço, comprava monociclo e perna de pau.” Fui aperfeiçoando. O pai gostava de consertar coisas, o ator aprendeu a utilizar ferramentas. “Eu e o irmão ganhamos marionetes que chegaram do Uruguai, aos 8 ou 10 anos fizemos espetáculos na garagem e meu irmão pintava os painéis de cenário para as crianças, era no bairro Fátima.” O acesso ao teatro não era tão facilitado, mas a magia do circo entrou cedo pela retina de Wieser. Não foi por acaso que o palhaço Lorde Espiga, faz 15 anos, entrou no rol de espetáculos do De Pernas Pro Ar. “Com ele entraram as primeiras traquitanas, telefones gigantes com som, buzinas, engenhocas simulando sanfona”, aponta. “O teatro brasileiro tem esse jeito, de se apropriar do artesanal, de criar elementos.” Essa ligação familiar permanece em 2019, agora com os filhos Txai Durigon Wieser e Tayhú Durigon Wieser.

A estreia em 1988


Em 15 de outubro de 1988 o grupo canoense, com a esposa de Wiser, a produtora e bonequeira Raquel Durigon, estreou “Se eu fosse um pássaro”. “Era mais um teatro de bonecos, mas tinha um embrião misturando circo, sem se prender a um gênero”, aponta o ator. “Eu fazia acrobacia, tinha algo de maquinarias, mas só depois, fui entendendo as geringonças como uma especificidade nossa.” No espetáculo “Lançador de Foguetes”, a partir de 2006, é que as maquinarias se tornaram protagonistas. “Usava um triciclo e adotava engenhocas com a função de lançar foguetes, surgiu a partir de experiências para ajudar meu filho na feira de ciências da escola”, conta Wieser. “Esse estudo sobre propulsão de ar entrou para o espetáculo e nos acompanha até hoje.”

Steampunk e Automákina


Revolução industrial do século XIX, máquinas a vapor. Uma tecnologia embrionária, mas que mudaria o mundo do trabalho e as relações sociais. Daí vem a palavra inglesa “steam” (vapor). Mais do que isso o gênero “Steampunk”, leva os paradigmas do futuro para o passado. Roupas de época num outro contexto. Basta lembrar dos livros de Júlio Verne ou pensar em “robôs a vapor”. O espetáculo de rua “Automákina – Universo Deslizante” estreou em 2009, após três anos de loucura inventiva de Wieser. “Ganhamos o edital do Funproarte da Capital para fazer uma imersão em uma nova linguagem, borrando fronteiras do circo, animação, teatro de rua e artes plásticas”, aponta. “O mundo do personagem Duque Hosain'g é esse veículo gigante, com bonecos autômatos, instrumentos musicais a partir de objetos do cotidiano.” O grande sonho era embasbacar o público de rua, sem encarar esse palco a céu aberto (com tantas distrações urbanas) como limitante em comparação com a sala de teatro. “O projeto extrapolou: um triciclo gigante de 1,2 toneladas, oito metros de altura, a montagem leva de oito a 12 horas, é preciso desmontar em dois volumes e 12 cases e levar de caminhão.” Hoje o público acompanha tudo desde a montagem até a aparição de Duque Hosain'g em cena. “O personagem leva o microuniverso dele nas costas, mas esse mundo entra em colapso”, conta. “Sinto que esse resgate de objetos inutilizados passou a ser uma forma de comunicar minhas ideias, um jeito de falar de forma mais relacionada ao passado, às lembranças.”

OS GADGETS VIVOS

Máquina de voar (Asas) – Asas de funcionamento mecânica e automática acopladas ao corpo do ator.

Maquina de sapateado – Máquina de sapateado de funcionamento mecânica e automática traz muitas lembranças pois possui a base de uma máquina de costura antiga e moldes antigos de sapateiro. O resultado é através de um conjunto de mecanismos, um grupo de “sapatos” que dança uma valsa, também faz parte das máquinas sonoras.

Dedalejo (Maquina musical com “dedos” inspiração nos realejos) – Faz parte do conjunto de máquinas sonoras, possibilitando criar uma linha melódica. de Funcionamento mecânica e automático.

Máquina de lembranças - A partir de um arco (livre inspiração no homem vitruviano de Da vinci) movimenta-se vários bonecos robotizados(pessoas que revivem memorias do personagem) Maquina de funcionamento automatizado.

Máquina de Recordar - É gêmea da maquina de lembranças e foram separadas ao nascimento, feita a partir de Super 8 antigo possui um olho que abre e fecha espiando tudo. Maquina de funcionamento mecânico e automatizado.

Semeadora de nada – Maquina mecânica que semeia espalhando vontades esquecidas do personagem.

Vestido dançante – Máquina de movimentos leves e graciosos, com possibilidade de dançar. Maquina de funcionamento automatizado.
Ginoide Fracionada (Cabeça falante de Mulher robotizada) – com coração e cérebro fracionados. Ginóide é composta por outra maquina como: Mão mecânica – Mão mecânicas acoplada a mulher fracionada (a mão é automática que através de seu movimento, poderá interferir na ação do ator).

Víspora – Um jogo de Bingo com artifícios de um coração pulsante contraponto com o cérebro maquinal. Maquina de funcionamento mecânico e automatizado.

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