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Notícias | Gramado Coronavírus

'Fizemos o que tinha que ser feito', explica proprietário de lar com surto de Covid

Proprietário da instituição de idosos que teve surto de Covid em Gramado, o médico Ubiratã Oliveira, aponta que o local adotou desde março protocolos sanitários conforme as Secretarias da Saúde do Estado e Município, e lamenta o falecimento de quatro residentes

Por Laura Gallas
Publicado em: 13.09.2020 às 17:14 Última atualização: 14.09.2020 às 15:58

Santa Ana Residencial Geriátrico atente há 8 anos em Gramado Foto: Reprodução Facebook
Na semana passada, quatro idosos faleceram no Hospital Arcanjo São Miguel. Eles eram residentes do Santa Ana Residencial Geriátrico, em Gramado. No local foi identificado surto de Covid-19 conforme o Centro de Operações de Emergências (COE) e a Vigilância em Saúde Gramado. Conforme as equipes de saúde, cerca de 65 pessoas foram expostas ao vírus. Após as testagens, foram confirmadas 19 pessoas positivas para a Covid-19, entre funcionários e idosos. Na manhã deste domingo (13) oito idosos continuam hospitalizados – cinco na UTI e três na enfermaria da casa de saúde. Um paciente, positivo para o novo coronavírus, recebeu alta na tarde de sábado (12), e retornou para o residencial.

Conduta adotada há 6 meses

O médico Ubiratã Oliveira, proprietário da instituição de idosos em entrevista ao Jornal de Gramado, explica que o local adotou, desde março, protocolos sanitários conforme as Secretarias da Saúde do Estado e Município. “Fizemos o que tinha que ser feito. Do ponto de vista em cuidados com higiene e dedicação dos colaboradores. Mas a gente fica entristecido, muito chateado, no sentido de que os vovôs foram vitimados. O Santa Ana foi vitimado”, revela Ubiratã que atua há 30 anos na área médica.

No Estado, mais de 230 instituições para idosos estão sendo monitoradas após casos positivos de Covid. Segundo Oliveira, a idade média dos residentes do Santa Ana é de 89 e 90 anos, e moradores com comorbidades graves. “Nós, devido a nossa conduta profissional, éramos sabedores de que uma hora poderiam ocorrer casos no nosso lar de idosos. Estávamos com uma boa expectativa porque nós estávamos lutando desde o dia 11 de março, adotando medidas da Vigilância em Saúde do Estado e município. Tínhamos uma falsa ilusão de que nós íamos passar em branco, ainda mais entrando na primavera”, explica. Dois funcionários do residencial geriátrico que trabalhavam no hospital foram demitidos pela direção no início da pandemia, justamente por questões sanitárias. Ubiratã, a esposa e o filho, que também atuam na medicina, testaram negativo para o vírus. A instituição conta com 25 funcionários, destes, seis testaram positivo, mas não precisaram internar. Conforme Oliveira eles passam bem.

Ubiratã aponta que as visitas no lar foram proibidas desde março, assim como as atividades extra como missas e recreação. Produtos que chegam são higienizados, e nenhuma outra pessoa, que não seja colaborador, não entra no residencial. Ele comenta que para os funcionários, diariamente, há uma ficha a ser preenchida com sinais vitais, temperatura e histórico das últimas 24 horas, para anotar se teve sintomas gripais, por exemplo. “A equipe é muito bacana e responsável. Em março fizemos um pacto de fidelidade e de honestidade com todos, em que qualquer sintoma dele ou de familiar, ou sabedores de algum contato com Covid positivo, que não fosse trabalhar, só comunicasse e fosse para atendimento na tenda do município”, esclarece. O médico aponta, ainda, que não houve nenhum quadro de residente por síndrome gripal durante o ano, diferente dos outros anos, nem com febre, até final de agosto.

"Vírus invisível e traiçoeiro entrou"

Para Ubiratã, do ponto de vista epidemiológico, as cidades turísticas são mais difíceis de controlar o vírus, já que recebem visitantes de muitas partes do país, ou seja, existe uma dificuldade no controle da disseminação. Com isso, existem os casos assintomáticos. “Os colaboradores trabalham e vão para casa, têm filhos e esposas que, muitas vezes, trabalham no comércio da cidade ou na hotelaria e gastronomia. Além disso, muitos dos nossos vovôs possuem doenças graves e são debilitados e, por consequência, eventualmente precisaram de atendimento médico de emergência no hospital nesse período de pandemia. Fizemos todas as medidas necessárias possíveis, mas infelizmente esse vírus invisível e traiçoeiro entrou. Agora, se foi por via do colaborador ou por via do residente em uma das saídas para fazer um procedimento de emergência, é complicado saber”, lamenta.

Dia das hospitalizações

O residencial recebe idosos há 8 anos, e Ubiratã esclarece que no local não há cuidadores, e sim uma equipe multidisciplinar para atender os moradores. Médicos que acompanham os residentes há tempo também atuam no local.

No início de setembro, assim que notou que alguns idosos apontaram início de síndrome gripal, Ubiratã acionou o COE. “Como se fosse uma tempestade ali dentro, já fizemos a testagem em massa dos idosos e colaboradores e dia 4 as ambulâncias não paravam. Foi uma coisa horrorosa. Desde então nos unimos com o Estado e município para fazer todas as medidas pós-surto”, relembra.

Gravidade da doença

“Hoje estou abraçado com os vovôs e com as famílias, no sentido de amenizar o sofrimento e a dor e toda essa situação. A doença é tão grave que tem um vô que está estável, mas para ele ficar instável é questão de horas, e não dias. A doença é devastadora. Tu nunca pode dizer que está bem, eles evoluem para pior rapidamente”, enfatiza médico.

Ubiratã comenta, ainda, que os idosos que chegaram no hospital estavam acordados, lúcidos, orientados e os que caminham chegaram caminhando. “Mas a evolução é devastadora. Foram com início de sintoma de gripe, mas para quem tem muita idade e comorbidades gravíssima, o sistema imunológico é precário – isso não é uma justificativa, é realidade, é fato”, argumenta. O surto, segundo ele, foi identificado no início, nenhum residente faleceu no residencial.

Atualmente 19 idosos seguem no residencial em isolamento e bem. Dois que testaram negativo estão com as famílias em quarentena orientada e vigiada pela Saúde do município. “Mesmo negativos, a quarentena envolve a todos que estejam com o idoso. E estão bem”, completa.
“A gente tem uma consciência muito clara de que mais gente não terá uma evolução boa. A doença inflamatória é muito agressiva, mas a gente lamenta, fica consternado com as famílias e com eles. A maioria dos residentes está há muito tempo morando lá”, conclui.

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