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Olimpíadas Esporte

Renúncias em nome da paixão: a história da judoca criada em Canoas

Taciana saiu de Canoas para lutar pela delegação de Guiné-Bissau, país do pai

Por Shállon Teobaldo
Publicado em: 06.08.2021 às 03:00 Última atualização: 06.08.2021 às 11:17

Nascida em Recife, criada em Canoas, atleta de Guiné-Bissau e residente em Portugal. Em nome de sua grande paixão, o judô, Taciana Lima César, 37 anos, tem uma parte de si em cada canto do mundo. A mais recente, em Tóquio, no Japão, em sua segunda participação nas Olimpíadas. "Gratidão imensa ter vivido Tóquio. Triste por não ter vencido, mas com muito orgulho por todo caminho que construí até aqui", destaca ela.

Taciana Lima CESAR Foto: Arquivo pessoal

E que trajetória! Vestiu o primeiro quimono aos 11 anos, por influência da irmã mais nova, e começou a treinar no clube Canoense. Por ser muito magra, a mãe, Raquel Rezende, tinha medo de que a filha se machucasse e sugeriu o atletismo, mas não teve jeito, o judô já havia ganhado o coração de Taciana, que durante um ano apenas observou de longe, mas aproveitou para aprender tudo.

"Quando a mãe deixou fiquei que nem pinto no lixo, foi maravilhoso. Com seis meses de treino já participei de um campeonato nacional e fiquei em 5º lugar", relembra Taciana, grata pelo apoio da família. "Sempre queremos o melhor para as filhas, quando ela começou a competir percebi que era um talento natural, que ela tinha jeito para ser profissional", diz Raquel, que até hoje vive no Bairro Mato Grande, em Canoas.

A virada

Em 2007, decepcionada com a desclassificação para os Jogos Olímpicos de Pequim, quis saber mais sobre o pai biológico e descobriu que Oscar Baldé era ministro da Engenharia e Pesca em Guiné-Bissau, país do litoral oeste africano.

"Nos conhecemos pessoalmente em 2012, no Senegal. O primeiro encontro não teve emoção, mas com o tempo fomos construindo nossa relação e hoje somos muito amigos", conta a atleta.

Interessada em conhecer a cultura do pai, pediu para ir até Guiné-Bissau, se deparou com extrema pobreza e ali algo mudou em seu coração. "Não pensava em representar o país como atleta, mas fiz minha naturalização guineense e voltei de lá muito mexida. Acredito que tudo na vida tem um porquê e percebi que poderia ajudar aquele povo através do esporte. Em 2013 fiz a troca de seleção, ainda vivendo em Canoas, e logo ganhei o primeiro campeonato africano", ressalta ela, que é sete vezes campeã do continente.

O outro pai

Criada pelo padrasto, Anicio (in memoriam), Taciana recorda com muito carinho do pai que além de todo apoio emocional, investiu financeiramente em sua carreira. Em 2016 realizou o grande sonho de competir na Olimpíada do Rio, mas essa figura fez muita falta. "Foi mágico ter minha família lá, assistindo, torcendo, só não foi melhor porque o homem que fez tudo por mim não estava lá pra ver. Sou muito grata ao meu padrasto, que sempre acreditou em mim", diz Taciana.

Representatividade

Do que mais sente falta além da família é do churrasco de domingo. Além disso, não vê a hora de dar um passeio no Capão do Corvo e jogar conversa fora com os amigos. Formada em Educação Física e pós-graduada em Lutas, Taciana lembra com afeto do Colégio Cristo Redentor, da Ulbra, onde competiu pelos jogos escolares. “Trocar de seleção foi a melhor escolha da minha vida, mas tenho muito respeito e gratidão por Canoas, que me deu a chance de começar. Sei até cantar o hino do município, representa muito na minha vida”, diz ela. 

Maternidade

Mulher, negra, atleta, empresária… e mãe! Taciana nunca aceitou os rótulos que tentaram defini-la. Sabia que seria difícil, mas que conseguiria conciliar o judô com a maternidade e assim o fez. Casada com o também judoca Diogo César, português naturalizado guineense, teve o pequeno Gustavo, hoje com dois anos. “Sofri preconceito, mas usei as palavras duras como motivação, desafio, para mostrar que é possível”, enfatiza ela.

Taciana Lima com a família, o esposo Diogo e o filho Gustavo Foto: Arquivo pessoal
Ao lado do marido, comanda um clube de judô em Lisboa e, ainda sem pensar muito
no próximo passo da carreira como lutadora, tem certeza de duas coisas: quer continuar
ensinando o esporte que transformou sua vida, inclusive com um projeto em GuinéBissau, e ser mãe novamente. “Chego aos 37 anos com o mesmo entusiasmo da menina de 11 que descobriu
no tatame sua vocação e é muito gratificante poder passar minha experiência para as novas gerações”.

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