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Cotidiano | Viver com saúde Entrevista

O que ainda podemos esperar da pandemia da Covid-19?

Professor analisa situação em razão de medidas atuais e projeta panorama do novo coronavírus no Estado, País e mundo nos próximos meses

Por João Victor Torres
Última atualização: 23.05.2020 às 10:30

Spilki é professor da Universidade Feevale Foto: Divulgação/Feevale
Presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e professor da Universidade Feevale, Fernando Spilki analisa de que forma o País enfrenta a pandemia causada pelo novo coronavírus. Por outro lado, o cientista considera o inverno como um fator importante e que poderá acarretar - especialmente no Rio Grande do Sul - em um prolongamento da transmissão do vírus.

Pingue-pongue

Qual o estágio da pandemia que estamos agora?

Ainda estamos na curva de subida. Quando a gente compara, seja local ou no Brasil, com outros países onde já se atingiu o topo, e mesmo em situações muito graves da epidemia [como é caso da França e da Espanha onde há uma curva declinante], notamos que o nosso perfil ainda é de incremento importante do número de casos.

Então, quando a gente olha as projeções, claro que elas sempre devem ser vistas com certa reserva, jogam o platô para mais um tempo daqui em diante. Ainda estamos na curva de subida. Não alcançamos muito provavelmente um platô.

O que tem chamado a atenção aqui no Estado?

Vemos municípios médios e pequenos com números impressionantes, com curva ascendente muito forte e surtos identificados. Se pegares Garibaldi, Arroio do Meio e Taquari, [foram] muito influenciados por frigoríficos ou outras empresas. Isso começa em um pequeno agrupamento, vai para o interior de uma casa e depois para outra empresa.

Assim, vai formando um surto maior. Estamos vendo nessas cidades surtos grandes e preocupantes. Hoje, por exemplo, municípios pequenos figuram entre aqueles com maior número de casos.

Salões de beleza e barbearias passaram a ser consideradas atividades essenciais. Era necessário?

Essa questão dos salões de beleza é tratada de maneira diversa ao redor do mundo. Tem até lugares em que há restrições bastante grandes, mas ocorreu relaxamento. O que se cobra é que a lotação deve ser controlada e cuidada, assim como o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) para todos, seja para quem está sendo atendido ou trabalhando.

Isso precisa de regulamentação muito forte, porque não pode ser [feito] qualquer tipo de procedimento. O tempo e a aglomeração são definitivos, pois quanto mais tempo se tem de contato entre as pessoas, e mais pessoas estiverem juntas, maior é a chance da passagem do vírus.

Academias também estão neste grupo dos serviços essenciais...

No caso das academias, por exemplo, temos outros problemas relacionados com a prática da atividade física que leva, pelo esforço respiratório e movimentação, a um risco maior. Estive olhando algumas coisas referentes à lotação preconizada como possível por alguns órgãos dentro de uma academia.

Dependendo do tamanho, me parece muita gente junta respirando com intensidade. Vejo que há algum movimento de profissionais da área dizendo que aumenta a imunidade, mas o exercício deve ser feito em casa. Tem que haver esse cuidado e, na medida do possível, que se dê atendimento personalizado especialmente à distância. Tem que ser algo adotado com muita cautela ou simplesmente se evitar.

Sobre o RS, quais são os pontos positivos do distanciamento controlado?

Vamos ter que ver o funcionamento disso, incremento ou não do número de casos em virtude da desregulamentação. Acho que há várias coisas que dificultam a análise dessa performance. Em muitos locais, apesar de o distanciamento estar regulamentado, não estava sendo praticado da maneira adequada. Porque parte da população simplesmente não aderia mais, estava saindo à rua ou abrindo o comércio de maneira inadvertida e sem respeitar regramentos. A partir daí, podemos avaliar a maneira como está implementado o distanciamento.

Acho que o racional é interessante no sentido de fazer um degradê. O sistema de bandeiras é interessante. A ideia é tentar manter a atividade econômica e os serviços funcionando. Considero algo importante manter um espectro em funcionamento até para se evitar um empobrecimento [da população].

Quais exigem maior atenção neste momento?

Uma dificuldadeé que serão avaliados os sete dias anteriores, com aumento ou decréscimo do número de casos e o retrato local da pandemia. Uma das questões postas é que nem sempre os sistemas de contagem são atualizados no período propício. Às vezes, por exemplo, vemos casos que demoram sete dias para entrar na contagem oficial. Essa é outra limitação que pode aparecer.

Como um sistema que está sendo implementado, onde acredito que se pretende observar a performance, se ele de fato está funcionando e tem essa flexibilidade de aumentar ou diminuir a bandeira. O governo do Estado tem sido pró-ativo no sentido de observar essas questões. Se forem necessárias algumas alterações ou readequações e elas forem tomadas, pode ser bastante interessante.

O que deve ser pesado?

É uma experiência importante que está sendo feita, mas [é preciso] sempre olhar essa questão da flexibilização do distanciamento com cautela, porque mesmo em locais onde se é, de maneira detalhada, olhado as taxas de ataque, como a questão de casos novos para cada caso [já] confirmado [como ocorre na Alemanha], em alguns momentos o número de casos acaba subindo.

Um recado importante: não é por que o distanciamento social está colocado e sendo flexibilizado em algum momento que as pessoas devem retomar a vida completamente em sua normalidade. [Para dar certo] Depende muito da participação do cidadão. Como disse, vivíamos um período mais restritivo e as pessoas não estavam respeitando.

Outro debate diz respeito a uma eventual volta às aulas. É viável?

A volta às aulas das crianças é um pouco mais, digamos assim, factível do que a do público universitário. Na educação infantil, é uma comunidade que, normalmente, mora próxima da escola e é possível mapear adequadamente o número de casos e há comunicação entre as pessoas. Então, você tem uma comunidade relativamente restrita onde se consegue controlar 'melhor' a situação.

No caso de outros níveis de ensino, especialmente superior, existe uma questão mais delicada e que precisa ser adequadamente estudada e valorada. Normalmente você tem, numa universidade ou faculdade, indivíduos de diferentes regiões. Então, precisa ser um sistema melhor gerido e pensado [a partir da realidade de] que você pode ter indivíduos [vindos] de uma região com decréscimo de casos e outros de municípios onde há incremento e possibilidade maior de transmissão.

Não cabe a qualquer um de nós tomar a decisão, mas são coisas que o Estado e os municípios, assim como os gestores de instituições, precisam estar atentos. Acredito que precisamos acompanhar os números das próximas semanas.

Outro tema que tem sido alvo de muito debate diz respeito à volta do futebol. Quando será possível voltar a jogar e em quais circunstâncias?

Na questão do futebol, se criou, e grande parte da forçação que aconteceu para o retorno aos treinos do Inter e Grêmio, por conseguinte puxaria pelos demais clubes do interior, a ideia de que 'vamos voltar logo e sob condições controladas', mas temos várias fraquezas colocadas. Primeiro, que tipo de teste será usado? Dependendo, se forem os testes rápidos, que tem índice de falhas bastante alto e de falsos negativos, isso pode ser um problema.

Existe toda a questão da logística dos profissionais que não são jogadores, mas estão associados ao futebol e não apenas do clube, isso da arbitragem a quem abre e fecha o estádio. Tem que ter testagem para todo mundo, porque está em contato direto com os jogadores. Ou, pelo menos, usar todo o tipo de segurança. Não dá para ter estádio aberto de maneira nenhuma. Esse tipo de evento seria impensado.

Ainda não chegamos ao inverno, e quando se intensificar o frio, esse seria um complicador que o Estado terá pela frente?

Podemos ter um perfil local, e isso está bem demonstrado em números que estamos acompanhando, de epidemia bastante diferenciado. Muitas vezes, essa discussão cai no seguinte: 'mas em Manaus, Ceará e São Luís, são locais onde é quente sempre e se tem a pandemia ocorrendo loucamente'.

Bom, você também tem lá, que não está ausente aqui, um nível de pobreza muito grande e de [várias] pessoas vivendo [juntas] num determinado cômodo [de uma casa] e um desrespeito às normas de distanciamento social. E se teve uma disseminação muito grande da epidemia.

O que sabemos no mundo em relação à temperatura e pandemia: nos locais em que tínhamos a faixa de temperatura entre 3 a 13 graus centígrados foi onde o vírus mais se espalhou. Por aqueles motivos que normalmente nos levam à disseminação de doenças respiratórias no inverno. Temos menos ventilação natural ocorrendo nos ambientes, pessoas mais aglomeradas convivendo de maneira mais próxima, isso desde a antiguidade é observado.

O RS poderá conviver com o vírus por mais tempo?

Quero lembrar que, em 2009, no H1N1, quando começamos a ter os primeiros casos por volta de maio, a situação tinha arrefecido em outros Estados e perdurou aqui o problema de casos recorrentes até agosto daquele ano. Num número razoável alcançado quase até setembro e fomos ter um arrefecimento completo próximo de novembro.

Comparando com outros vírus que entraram, a população tinha muito pouca imunidade contra ele. Essa questão do inverno é um medo. É um receio. Eu torço para estar errado, mas acho que podemos ter aqui uma circulação do vírus relativamente alta, mais prolongada e até intensificada pelo inverno.

E a cloroquina?

Muitos dos estudos precisaram ser conduzidos em pacientes com quadros mais avançados. Vemos, não só para a cloroquina, mas para outros medicamentos, a partir da publicação de dados e estudos melhores organizados, feitos com mais critérios, que a eficácia da cloroquina, lamentavelmente, tem sido baixa para o tratamento.

Também se depositou de início bastante esperança no próprio Remdesivir, que teve um estudo feito nos Estados Unidos e o assessor de saúde da presidência (dos Estados Unidos) foi bastante eufórico na divulgação dos resultados, mas quando se lê o artigo, se vê que não estamos diante de um tratamento tão definitivo assim. Com relação à cloroquina, há estudos demonstrando pouco impacto no desfecho da doença, seja na evolução do caso para usar respirador ou em número de óbitos.

E no Remdesivir, até agora, se vê uma redução pequena sobre um grupo controle [estudado]. São marcadores importantes para essas drogas e, infelizmente, parece que a gente não tem algo tão definitivo para o tratamento da doença.

Há outros medicamentos em testes?

Há outros medicamentos e protocolos em teste e alguns deles com resultados interessantes, como associação de medicamentos virais. Ainda há uma série de possibilidades desses medicamentos funcionarem. Porém, vejo que por vezes as coisas têm sido misturadas. 'Vamos poder ter atividade econômica normal a hora que tiver tratamento e vacina'. Tratamento não é o definidor disso. A gente não pode esperar que vá retomar a normalidade porque se consegue salvar as pessoas [pacientes].

E as vacinas?

A normalidade vai ser dada, ou muito perto disso, por vacina. O que temos observado é que há, pelo menos, oito vacinas em estágio clínico avançado e uma norte-americana indo para a fase três que deve verificar a eficácia dela em nível populacional e de que modo é capaz de defender [o organismo]. Há dezenas de estudos pelo mundo, e devemos ter em breve centenas de estudos brasileiros, e seguramente a gente vai ter ao redor do final do ano uma série de resultados nesse sentido.

Agora, há outros desafios. Um deles é como produzir [vacinas], em tempo necessário, e distribuir isso no mundo inteiro. Aqui, a população toda deverá de ser vacinada. Mesmo que tenhamos uma [vacina] até o final deste ano ou metade de 2021, que é aquilo previsto como algo factível, qual será o tempo necessário para ser produzida a todos os países?

Após a pandemia, em que mundo vamos viver?

Vai depender muito do aprendizado que nós vamos tirar. O padrão de vida e hábitos que tínhamos até a metade de março é difícil que seja retomado completamente. As reuniões sociais, casamentos, aniversários, formaturas e, infelizmente, os próprios funerais acho que por um bom tempo vão ter que funcionar de uma forma muito diferente. Não pode ser de uma hora para a outra que poderemos retomar tudo isso. A própria atividade de eventos presenciais terá que ser muito bem pensada.

A gente imagina que não teremos tão cedo uma erradicação completa e dada a transmissibilidade e letalidade, vamos ter que monitorar [o vírus] e pensar sobre ele por um bom tempo. Além disso, as próprias atividades de serviços e industriais, e até o mundo do trabalho precisará se organizar de forma bastante diferente não só agora, mas depois para evitar novos problemas.

E as próximas pandemias?

Precisamos pensar que dos anos 2000 para cá tivemos várias pandemias ou epidemias de nível continental como a Sars (2003), H5N3 (2003), H1N1 (2009), Mers (2013). E um incremento muito grande no número de casos de dengue nas últimas duas décadas. O problema do Ebola na África, que foi terrível, a pandemia de Zika, a disseminação do Chikungunya para todos os continentes. Tudo isso é novo. Na África e no Brasil tivemos evento relacionado à febre amarela em 2015.

Esse ano temos o Sars-Cov-2. Precisamos estar preparados para as próximas que, parece, estão cada vez mais frequentes em virtude de tudo, da degradação ambiental, do próprio processo de globalização. O mundo pós-pandêmico precisará estar melhor preparado para lidar com novas pandemias.

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