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Cotidiano | Gente Adaptação

Segunda onda da pandemia obriga famílias a adiar o tão esperado reencontro

Em razão do coronavírus, famílias foram obrigadas a ficar meses sem ter contato físico, seja por sanções sanitárias que dificulta circulação ou por saúde

Por Débora Ertel
Publicado em: 31.10.2020 às 12:00 Última atualização: 31.10.2020 às 12:19

Yeda Nez Andriola, 69 anos, está preparando os presentes que levará para o neto Liam que nasce em dezembro na Alemanha Foto: Débora Ertel/GES-Especial

Se a distância aumenta a saudade de quem se quer bem, a incerteza de saber quando o reencontro será possível tem provocado um aperto extra no peito. É dessa maneira que famílias espalhadas pelo mundo inteiro têm se sentido desde que o coronavírus obrigou os países a fecharem suas fronteiras e a restringirem o fluxo para conter a pandemia. Mesmo com a queda de contaminação e de óbitos diários no Brasil, a segunda onda de casos de Covid-19, principalmente na Europa, ainda impõe um conjunto rígido de normas na circulação entre as nações. Além da quarentena, há países que exigem testes clínicos com certificação internacional para conseguir sair do aeroporto. No entanto, há lugares onde reina a total insegurança em relação aos protocolos sanitários e se alguém entrar no país, corre o risco de não conseguir sair, e quem sai, pode ter o retorno vetado.

A professora hamburguense Andreia Alves de Oliveira, 30 anos, mora em Sydney, na Austrália, desde fevereiro de 2019. "Eu estou morrendo de saudade! Tem dias que quero voltar correndo para casa [Brasil]", diz. Como as fronteiras estaduais e nacionais estão fechadas, ela ainda não sabe quando poderá visitar os pais e amigos aqui na região. "Os estrangeiros podem sair da Austrália, mas não podem retornar", explica. Segunda ela, a pandemia trouxe incertezas e também desemprego, inclusive, para brasileiros que viviam na terra do canguru e tiveram que deixar seus projetos para trás e foram forçados a voltarem para o Brasil. Até agosto, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores (MRE), quase 40 mil brasileiros tinham sido repatriados por conta dos efeitos da pandemia.

De malas prontas

A Alemanha tem sido um dos locais com protocolos sanitários mais rígidos durante a pandemia. Tanto que anunciou na quarta-feira (28) um lockdown parcial com duração de um mês a partir do dia 2 de novembro para conter uma segunda onda de contaminação. Até 28 de outubro, o país tinha 449,2 mil infectados e 10.098 vítimas de Covid-19. Mas graças a uma das exceções autorizadas pelo governo germânico para a entrada de estrangeiros, que estava vigente até então, a representante comercial Yeda Inez Andriola, 69, já tem uma das malas prontas. Ela é de Sapiranga e tem a única filha, Letícia Andriola-Scherer, 32, morando em solo alemão há oito anos. Em dezembro, nascerá o primeiro neto de Yeda, que se chamará Liam, e por isso poderá viajar. "Eu embarco dia 19 de novembro. Estou contando os dias", conta a futura vovó, mostrando todos os presentes que a família separou para que ela leve junto. "Vou levar duas malas. Mas é um justo motivo para pagar pelo excesso de bagagem", garante.

No entanto, Yeda já foi alertada das regras a serem seguidas. A primeira delas é levar um exame para Covid-19, feito em laboratório e traduzido para o inglês, realizado dois dias antes da viagem. Ao chegar, terá que ficar três horas no aeroporto e realizar novo teste, além de cumprir a quarentena antes de sair às ruas. Como o lockdown passa a vigorar na próxima segunda, a família ainda não sabe se o governo alemão vai impor mais exigências até o dia da viagem de Yeda.

Até lá, a vovó continuará organizando os presentes que Liam vai receber assim que nascer.

Pequena Isabelle ainda não conheceu a família brasileira

A professora Patricia Becker-Palanques, 32, há quase um ano viveu um dos momentos mais importantes da sua vida. A chegada da primeira filha, Isabelle Palanques, que na segunda-feira comemora seu primeiro aniversário. Vivendo em Oberndorf am Neckar, na Alemanha, a pandemia impediu que a família brasileira, residente em Novo Hamburgo, participasse presencialmente das primeiras descobertas da bebê. Além disso, Patricia tem um motivo a mais para querer visitar o Brasil. A mãe está doente e recentemente ficou internada.

No país europeu, a licença-maternidade tem duração de dois anos e a hamburguense teria tempo de sobra para passar uma temporada aqui. Mas com a pandemia, ela não vislumbra uma possível data para o encontro. "Se fosse só eu, até daria para viajar, mas com a bebê não dá, já que ela não usa nenhuma proteção durante o trajeto", diz. A última vez que ela viu a família pessoalmente foi em março de 2019. Patricia diz que não se sente segura no ambiente de voo. "Se uma pessoa tiver a doença é certo que passa para a Isa, que pode passar para mim e para a minha família no Brasil", ressalta.

Canadá com as fronteiras fechadas

Morando há um ano e quatro meses em Calgary, na Província de Alberta, no oeste do Canadá, a paisagem das montanhas rochosas vai sendo um alento para a contadora Andrielly Schneider Fidellis, 30. Natural de Novo Hamburgo, ela e esposo Jean Pierre dos Santos, 31, estão morando pela primeira vez fora do Brasil. De acordo com ela, a pandemia não afetou sua rotina diária. "A maioria do comércio ficou aberto, porém com número reduzido de pessoas no interior das lojas e com a obrigatoriedade do uso de máscara", relata. No entanto, o reencontro com a família e os amigos foi adiado. Os planos do casal de visitar o Vale do Sinos foram adiados e os amigos, que até tinham comprado passagens para uma viagem agendada para o mês de julho, não sabem quando poderão viajar. O Canadá não está autorizando a entrada em seu território de pessoas com o visto de turismo.

Além disso, o país fechou as fronteiras para todos que não sejam residentes permanentes do Canadá ou cidadão canadense. Isso dificulta o retorno de Andrielly e Jean ao país estrangeiro, pois ambos têm vistos de estudo e trabalho. "Ao chegar no território canadense, o governo exige que você cumpra isolamento por 14 dias, período que é monitorado pelos órgãos de saúde", informa Andrielly. Mesmo elogiando o lugar que escolheu para viver, ela diz que a distância sempre incomoda. "A parte mais difícil de morar fora é a saudade da família e amigos", finaliza.

Nada de passeios para a Argentina e Uruguai

Países vizinhos ao Rio Grande do Sul, a Argentina e o Uruguai estão com as fronteiras fechadas. Em Uruguaiana, por exemplo, a prefeitura informa que o fechamento está em vigor desde o início da pandemia. Apenas o transporte de cargas é permitido e nem viagens para visitar parentes próximos são liberadas. A fronteira área da Argentina deve ser reaberta no dia 2 de novembro, apenas pelo Aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires.

Já em Jaguarão, cidade que faz fronteira com Rio Branco, no Uruguai, conhecida por conta dos free shops, somente moradores locais com comprovante de residência podem cruzar a ponte. Segundo a prefeitura do lado gaúcho, não passa ninguém sem ser fiscalizado. Em Santana do Livramento, outro destino procurado também por causa dos free shops, há bloqueios e o Exército do país vizinho reforçou a vigilância.

Não é permitido fazer turismo no Uruguai e a proibição de ingresso de brasileiros vale para todos os modais (terrestre, hidroviário e aéreo). Inclusive, no último domingo, o ministro do Turismo uruguaio, Germán Cardoso, disse que o país não irá receber os viajantes no verão como medida de prevenção. "Quero que saibam que é uma decisão que tomamos com muita dor. Como uruguaios e anfitriões com grande vocação de serviço, nada nos agradaria mais que compartilhar uma temporada com vocês", declarou.

Entrada na China apenas com teste

Na China, onde vivem muitos moradores do Vale do Sinos, os estrangeiros com residência no país precisam fazer o teste de ácido nucleico (teste PCR) dentro de 72 horas antes do embarque, que deve ser enviado para embaixada ou consulados gerais chineses para solicitar a Carta de Declaração de Saúde. Desde 28 de setembro, os estrangeiros titulares de autorizações de residência chinesa válidas para trabalho, assuntos pessoais e reunião familiar têm permissão para entrar no país sem solicitar novos vistos.

Letícia está à espera de Liam e de Yeda

Letícia Andriola-Scherer, 32, filha de Yeda, trabalha como marketing manager na cidade de Sandhausen, ao sul da Alemanha. Ela é casada e decidiu se mudar por motivos de trabalho, a fim de garantir uma qualidade de vida melhor. Ela viu a mãe pessoalmente em setembro e o restante da família em março do ano passado, quando visitou o Brasil pela última vez. Segunda Letícia, as passagens de Yeda foram compradas somente após a Polícia Federal confirmar que ela seria autorizada a entrar na Alemanha. Sobre o nascimento de Liam, ela conta que a previsão de sua chegada é para 25 de dezembro. "Sim, exatamente no Natal!", comemora.

Hora do conto para aliviar o coração

Bere Adams conta histórias diariamente para os netos que estão na Alemanha Foto: Débora Ertel/GES-Especial
Com os quatro netos (Amanda, Lara, Adam e Gabriel) e as duas filhas (Elma e Alice) morando na Alemanha, a professora Berenice Adams, 59 anos, de Novo Hamburgo, buscou nos livros uma maneira de amenizar a saudade. Quase que diariamente, a vó Bere, como é chamada pelas crianças, é protagonista de um momento muito especial. Ela conta histórias infantis para os netos, uma hora do conto repleta de amor e carinho que somente uma vovó saberia dar.

Enquanto que na sala de casa, ao lado da janela, Bere mostra aos pequenos quais são as obras disponíveis, a milhares de quilômetros, deitados no quarto para ficarem próximos do celular, Amanda Adams Martin, 8, e Gabriel Adams Martin, 5, escolhem o que desejam escutar. "Eu não digo para as crianças o que estou sentindo. Mas se começo a falar sobre a distância, fico emocionada porque é muito difícil ficar tanto tempo longe deles", confessa. Em breve, completa dois anos que ela não se reúne com todos. Com passagens compradas em agosto de 2019 e viagem agendada para a Páscoa deste ano, Bere viu o sonho de reencontrar a família em Hockenheim desmoronar. "Quando cancelaram os voos, fiquei sem chão", desabafa.

O governo alemão, até o anúncio do lockdown parcial, liberava a entrada de estrangeiros para reunião familiar urgente por conta de nascimentos, casamentos, funerais e auxílio urgente para ente doente. Sendo assim, não há possibilidade dos Adams se reverem neste momento. Enquanto isso, Bere vai frequentemente ao sebo para garimpar e variar os títulos literários aos netos. Em cada página lida, a família vai falando sobre coisas do cotidiano. "Eu tô com uma amiga da escola de quarentena", contou Amanda. "A gente estava jogando com a Lara e o Adam antes vó", diz Gabriel.

A jornalista Alice Gehlen Adams, 37, não esconde que fica encantada com a dedicação de sua mãe com os netos, mesmo com a distância física. "Ela passa horas com eles, baixa jogos on-line, compra livros novos e lê para eles antes de dormir. Até tela das partidas o meu filho compartilha com ela. É muito fofo!", emociona-se.

No dia em que a reportagem visitou Bere para acompanhar a videochamada, o livro escolhido pela dupla foi "Ponto de vista". Antes de quarta-feira, a avó alimentava uma esperança de poder viajar, junto com o esposo, no final do ano. "Mas acho que agora nem no Natal", lamentou.

O plano inicial era de que os pais de Alice viajassem na companhia de um casal de parentes que ainda não conhecem a Europa. Tanto que as passagens foram compradas para os quatro. A data da chegada seria 16 de abril. Mas no dia 14 de março, a dúvida sobre a realização do encontro começou a existir e dias depois foi confirmado o cancelamento da viagem. "No início, a gente fez contato com a Latam para adiar, mas nunca imaginou que eles não poderiam vir tão cedo", conta. De acordo com Alice, ela até poderia viajar para o Brasil, mas há impedimentos relacionados à escola de Amanda, o valor das passagens (que subiram muito) e a contaminação por coronavírus.

Conforme a jornalista, entrar em contato com a empresa aérea para cancelar duas passagens e negociar o prazo de remarcação de outras duas não foi tarefa fácil. "Tive que ficar horas no telefone porque não recebia retorno on-line", diz. Agora, Alice tem até dia 31 de dezembro para remarcar sem custo a viagem dos pais. Já em relação às passagens dos tios, ela recebeu um voucher com validade até abril de 2022. No entanto, o tíquete não deve cobrir o custo de novas passagens aéreas em virtude na alta dos preços.

Protocolos da Anvisa

Em relação aos protocolos adotados para quem desembarca em aeroportos no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que vem monitorando todos os relatos feitos nos aviões para fazer as intervenções quando necessárias.

Segundo o órgão, não é feita uma triagem aleatória ou medicação de temperatura de forma indistinta para os passageiros, pois a medida é avaliada pelo governo brasileiro como de baixa efetividade, devido a diferentes fatores. Suspeitas relatadas pelos tripulantes das aeronaves são avaliadas pela Anvisa e, se mantida a suspeita, são encaminhadas para o serviço do município.

Se o viajante estiver sem sintomas ou qualquer outro sinal, ele deverá desembarcar e observar as orientações do Ministério da Saúde para pessoas que chegam do exterior. Conforme a Anvisa, todos os voos que aterrissam são de países com casos da doenças.

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