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Notícias | Região MÚSICA

Soprano de Canoas é voz gaúcha em palcos londrinos

Gabriella Di Laccio brilha nos teatros da Europa e busca empoderar as mulheres

Por Raquel Kothe
Publicado em: 02.07.2022 às 03:00 Última atualização: 02.07.2022 às 16:18

“O maior presente que eu ganhei dos meus pais foi o direito de sonhar sem limites”, conta Gabriella Di Laccio, a cantora soprano que nasceu em Canoas e brilha nos palcos da Europa. Além de ser reconhecida como artista, Gabriella, que mora em Londres há 21 anos, é uma “artivista” - um trocadilho que traduz bem o despertar da cantora em busca de mulheres com histórias relevantes no mundo da música clássica.

Cantora em frente ao Royal Albert Hall, inaugurado em 1871 pela rainha Vitória
Cantora em frente ao Royal Albert Hall, inaugurado em 1871 pela rainha Vitória Foto: Divulgação/Vanessa Satto

Foi o seu trabalho de coleta de informações sobre as mulheres que a fez integrar a lista de 100 mulheres influentes e inspiradoras de todo o mundo, selecionadas pela BBC, em 2018. Para ter uma ideia da importância de figurar nesta lista, são escolhidas mulheres que estão fazendo sua parte para reinventar a sociedade, a cultura e o mundo.

Em 2021, por exemplo, estão na lista Malala Yousafzai, a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz. A lista inclui também uma brasileira: a microbiologista e divulgadora científica Natalia Pasternak Taschner, que trabalhou no combate à desinformação no País durante a pandemia de Covid-19.

Morando em Canoas e depois em Sapucaia do Sul, sonhando em ser cantora lírica, sem qualquer histórico familiar na área musical, a menina Gabriella cantava no quarto as músicas que ouvia nas rádios. Depois, ingressou no coral da escola e aprendeu a cantar músicas italianas folclóricas. Aos 13 anos, a jovem teve acesso à Escolinha da Ospa. “Me fascinavam as orquestras, ir a concertos, o primeiro que assisti foi 'A Flauta Mágica'”.

Imitação

A menina imitava o jeito de cantores de ópera e aos 14 anos começou a treinar com um professor de canto, foi quando veio o desejo de se aprofundar no assunto. “Sempre fui muito estudiosa, estudei piano mesmo sem ter o instrumento." Ela chegou a cursar arquitetura na Ufrgs, mas percebeu que fazendo pequenos concertos poderia ser possível seguir o caminho da música.

Com uma mente matemática, traçou um plano que incluía estudar com a melhor professora do Brasil. Foi para Curitiba, no Paraná, ter aulas com Neyde Thomas, brasileira considerada uma das principais cantoras líricas (soprano) do País no século 20 e professora da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, onde Gabriella cursou bacharelado em canto lírico.

Aos poucos foi percebendo que as possibilidades no Brasil, ainda que estivesse contratada e trabalhando como cantora na Camerata Antiqua de Curitiba, eram restritas para o tamanho do seu sonho: ser uma grande cantora internacional. O incentivo de um maestro britânico e morador do Rio de Janeiro a fez acreditar que poderia ir mais longe.

Assim, contou com a ajuda dos pais de um aluno particular para quem dava aulas de canto para aumentar a renda. Gabriella recebeu a passagem aérea para participar da seleção da prestigiosa Royal College of Music e se tornou a primeira mulher brasileira a ingressar na escola. Mas passar no processo foi apenas uma das etapas. Gabriella precisava conseguir uma forma de financiar o curso. E foi graças a uma bolsa de estudos do Governo do Paraná - Fundação Araucária que ela conseguiu viabilizar o início da jornada em solo britânico.

No começo se sentiu 'engessada' e 'fora da caixa'

Quem vê a cantora empoderada de hoje não imagina o quanto ela se sentiu mal nos primeiros anos em Londres. Nos quatro anos do curso precisou passar por muita adaptação, conta.

Foram muitas mudanças. Um verdadeiro choque cultural. Gabriella não imaginava que sofreria preconceito por ser brasileira. “Eu me sentia muito menos. Diziam que eu me mexia muito”, revela. Foram anos para recuperar a autoestima e entender o processo de adaptação. Eram cinco dias de aulas por semana, com repertórios em língua inglesa, alemã e francesa.

“Tem muita gente talentosa. Os que têm algo para contar são os que acabam ficando. Me dei conta que deveria agir de forma verdadeira e que, assim, agradaria algumas pessoas”, justifica. A cantora, em seus concertos com música brasileira para o público europeu, fala muito. “Isso não é comum aqui. Procuro trazer a minha brasilidade e contar as histórias do meu jeito”, explica. A atitude muda a perspectiva do público, que entende melhor o que ela está apresentando em um idioma estranho para eles.

Nos festejos de aniversário de William Shakespeare - um dos mais influentes dramaturgos e poetas do mundo, nascido em 1616 -, Gabrielle participou de vários concertos com canções inspiradas nos textos do famoso britânico. Foi nesse momento que percebeu como desconhecia a quantidade e qualidade de músicas compostas por mulheres.

'Artivista' feminista

Gabriella é também uma das 67 mulheres com trajetórias inspiradoras, com histórias escolhidas para integrar a segunda edição do livro The Female Lead, lançado em novembro de 2021. Com mais de 4,2 milhões de seguidores, a instituição educacional é considerada a maior plataforma de empoderamento feminino nas redes sociais atualmente.

A primeira edição do livro, em 2017, reuniu mulheres como Christine Lagarde, Meryl Streep e Tina Brown, entre outras, e tem distribuição em 18 mil escolas do Reino Unido e EUA, que também recebem da organização filmes, materiais educacionais e de suporte às aulas.

A guinada na trajetória da cantora lírica teve como ponto de partida o ano de 2014, quando Gabriella descobriu dez ciclos de canções escritas por mulheres que não conhecia, ao pesquisar repertório para uma apresentação em homenagem aos 450 anos de nascimento de William Shakespeare.

Cerca de um ano depois, se deparou em um sebo londrino com os dois volumes da Enciclopédia Internacional de Mulheres Compositoras (1984), do norte-americano Aaron I. Cohen, com mais de seis mil nomes.

Ao questionar maestros, professores, músicos, jornalistas e constatar o desconhecimento geral sobre o assunto, Gabriella não teve dúvidas de que algo precisava ser feito: "nesse momento, eu soube que tinha que fazer alguma coisa, como mulher e como artista, para ajudar a tornar o trabalho dessas mulheres mais acessível", explica.

O que começou de forma despretensiosa cresceu, ganhou dimensão mundial e rendeu à artista a inclusão na lista das 100 mulheres mais influentes das BBC, ano do lançamento da plataforma online Donne: Women in Music, oficialmente inaugurado em 8 de março, Dia Internacional da Mulher. "Queria publicar uma lista para divulgar quem são essas artistas. Rapidamente comecei a receber mensagens de compositoras do mundo todo pedindo para serem incluídas e tudo foi crescendo rapidamente."

O projeto ganhou impulso internacional após o jornal britânico The Guardian publicar pesquisa da cantora revelando que as 15 maiores orquestras do mundo (segundo a revista Gramophone) dedicavam menos de 2% do repertório a composições de mulheres.

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