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Ficar ou sentir-se só?

É preciso ajuda para vencer o vazio da solidão

Segundo o IBGE, o número de brasileiros vivendo sozinhos quase dobrou em 10 anos. Mas quando ficar só é realmente prejudicial?
21/05/2018 10:21 21/05/2018 10:21

Solidão Somos muitos no mundo, 7,6 bilhões de pessoas aproximadamente, mas somos mais sós. Algumas vezes por opção, o que aponta o levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que demonstrou que, entre 2005 e 2015, o número de brasileiros vivendo sozinhos saltou de 6 para 10,4 milhões. Em outras vezes, resultado de um afastamento com origem em doenças emocionais, como a depressão, que atinge hoje 11,5 milhões de brasileiros, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). E se engana quem pensa que o número é resultado do envelhecimento populacional: os jovens hiperconectados ao mundo virtual lideram as queixas de solidão, um grupo de pessoas com idades entre 18 e 30 anos.

As redes sociais, onde se abre um mundo repleto de pessoas felizes e bem-sucedidas, também é território propício para se sentir só; comportamento conhecido como solidão tecnológica. “Neste cenário, parece que sou a coitadinha, e isso tende a aumentar a minha exigência e frustração. Se tenho predisposição a uma depressão e estou ali no limbo, a tendência é mais facilmente me deprimir”, detalha a doutora em Psicologia Clínica, terapeuta de casais e coordenadora de estágios do curso de Psicologia das Faculdades Integradas de Taquara – Faccat, Patrícia Manozzo Colossi.

DIFERENÇA

A psicóloga ainda lembra que há diferença clara entre ficar sozinho e ser solitário. “Quando a gente fala em transtorno psicopatológico, vamos sempre considerar intensidade e frequência da queixa e o nível de prejuízo ou sofrimento que o sujeito tem neste contexto. Então, se estou sozinha e bem comigo, isso não é um problema. Passa a ser quando me sinto só e tenho dificuldade de interagir com os outros e isso me traz algum prejuízo”, detalha.

Há ainda a “sozinhês”, que inclui períodos em que se tem necessidade de ficar só. “Posso chegar em casa, me deparar com ela vazia e aproveitar o tempo com uma leitura. Ou me deparar com o vazio e me sentir abandonada. A solidão é um estado permanente e a ‘sozinhês’, pontual. Posso ter relações sólidas e precisar por momentos ficar meu canto e está tudo bem”, explica.

Aumento do risco de doenças

Não é só o lado emocional o prejudicado com o afastamento e a solidão. Um estudo realizado na Grã-Bretanha e divulgado no mês de março apontou que viver só e apenas conviver com com poucas pessoas aumenta o risco de morrer de infarto e de acidente vascular cerebral (AVC). Segundo informações divulgadas pela Agência France-Press (AFP), o estudo recolheu dados de 479 mil pessoas que responderam a questões que demonstravam se estavam “socialmente isoladas” ou realmente solitárias.

“O isolamento social e o sentimento de solidão estão associados a um maior risco de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral”, citaram os pesquisadores finlandeses na revista médica Heart, uma das publicações científicas de maior credibilidade no mundo. Conforme os estudiosos, de fato, viver só se soma a outros riscos para o coração, como estilo de vida pouco saudável (tabagismo, alimentação desequilibrada, falta de atividade física e etc), má saúde mental e pobreza. Porém, excluindo estes riscos, o estudo concluiu que a solidão aumenta em 32% o risco de morte por infarto ou AVC.

Solidão a dois

“É um andar solitário entre a gente”, cita a bela poesia do português Luís de Camões. Porém, por trás do marcante verso, fica o alerta: quantas pessoas já não se sentiram sozinhas mesmo em meio uma multidão? E quando o assunto envolve amor, há ainda aqueles que afirmam ser sós mesmo tendo um relacionamento amoroso. A esposa solitária dentro de um casamento de 15 anos é mais comum do que se imagina. “Uma das maiores queixas dos adultos em terapia, tanto na clínica individual quanto na conjugal, é a comunicação. Um acha que o outro sabe que ele pensa e cria expectativas em relação a ele e que ele não sabe. Se o outro não sabe o que eu penso ou espero dele dificilmente vai atender a estas expectativas. Muitos casais dizem: ‘estou há tanto tempo com ela e precisei vir para a terapia para ela poder me dizer isso’, porque há um profissional ali para inicialmente mediar este diálogo e exercitar com este casal a comunicação”, ressalta.

Diálogo

A dica não é só abrir a boca e despejar uma infinidade de reclamações. “A tendência é que, numa relação, minha comunicação seja em relação à queixa que tenho do outro. Posso dizer que não me dá atenção ou posso dizer como eu me sinto em relação a determinada situação. Vivencio uma situação ruim no relacionamento, fico ali incomodada, não consigo compartilhar com o outro e aí eu armazeno. Quando isso vem pra fora, chega com um discurso violento, que desqualifica o outro, cheio de ‘tu sempre faz assim’, ‘tu nunca faz aqui- lo’, o que é diferente de dizer: ‘isso me agrada’, ‘isso me desagrada’. A terapia conjugal e individual também ajuda nestes casos a considerar, por exemplo, ‘será que ele sabe que eu espero que ele me prepare uma surpresa no dia dos namorados?’ Quando não conseguem compartilhar, abre um distanciamento no casal. Quanto mais distante está, mais fácil continuar se distanciando um do outro.”

Sozinho em meio ao luto

Uma brusca ruptura entre laços físicos que obriga a viver daqui por diante sem aquela pessoa. Um tipo de solidão que mais dói e incomoda é a ausência após a morte de um ente querido. “É preciso considerar as vivências que tive com esta pessoa que se foi, as experiências. Não vou ter mais a ela para recorrer ou compartilhar algo, mas consigo entender que a relação que se estabeleceu com ela vai se modificar, então permitir que fique na minha história. Aquilo que vivi com minha mãe, parceiro, filho está em mim, me constitui, me organiza como ser humano, o que eu preciso é gradativamente entrar em contato com estas vivências e poder chorar, poder falar disso”, cita a psicóloga.

Patrícia ainda explica que o período ideal para vivenciar o luto após perda de alguém amado é particular. “O luto está bem elaborado quando eu posso falar dele. Enquanto eu não mexi no armário das roupas da pessoa que morreu porque eu não consigo olhar, porque ainda sinto o cheiro dela, a enxergo pela casa, ainda está muito vivo. A solidão por luto passa por um período em que é difícil olhar aquelas roupas, mas cada um tem um tempo. Claro que se tiver dois anos que eu perdi alguém e minha casa está intocável, fiquei parada naquele momento, já é preocupante, pois é como se a gente congelasse a família, o casal ou o sujeito num momento anterior do ciclo vital”, lembra. 

Acabou o relacionamento, e agora?

Foram longos 12 anos juntos, mas o namoro teve fim e a sensação agora é de estar sozinho. “O esvaziamento, a lacuna, se constitui porque, no tempo em que esta pessoa viveu com o outro, facilmente abandonou os aspectos individuais e colocou toda a energia no relacionamento. É preciso considerar que existe uma parte que é da conjugalidade e uma parte que é da individualidade, que são meus grupos de amigos, meus hobbies, minha atividade física, tanto para os homens quanto para as mulheres”, explica.

E como saber se já é hora de começar um novo namoro? “É preciso viver o luto do término do relacionamento, é preciso sentir a falta. Sobre o tempo é uma discussão, existem profissionais que vão dizer que o ideal é de um a dois anos, de um ano, seis meses. Mais recentemente, há quem fale que é algo quase que instantâneo, o que é um absurdo, porque temos um tempo emocional necessário para processar as mudanças. Tive uma vida com aquela pessoa, às vezes, uma família, filhos. É preciso reconhecer que preciso de um período para processar essas mudanças internas no mundo em que vivemos, que é muito rápido, em que a gente não tem tempo para sofrer, para chorar. No momento em que a história vira cicatriz, uma marca que eu tenho, mas que não me dói mais, é possível se abrir para um novo relacionamento.”

Sem críticas

Aquele pequeno ser nem chegou a nascer, mas já se despediu da mamãe e do papai. Além da dor da ausência, gestantes e seus parceiros precisam, muitas vezes, encarar opiniões que menosprezam a dor diante da morte de um feto. “Para quem está fora, o contato é com a barriga da gestante, mas a mãe, pai, irmãos estão constituindo uma relação. Eles conversam com o bebê na barriga, fazem projetos, preparam o quarto, escolhem o nome. Se ele morreu ou não veio a nascer, parece que é só o procedimento obstétrico ou enterro do bebê e está feito, e não é assim. Há depois quem consegue compartilhar dizendo: ‘sou mãe de três filhos, dois nasceram e um não’. A mãe poder falar disso é importante. Há até um processo de luto mais difícil porque a sociedade não ‘autoriza’ essa mulher ou o pai da criança a viver esse luto.”


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