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América Latina

No Peru, Papa condena insegurança e crime organizado

Ao contrário do Chile, pontífice foi recebido com tranquilidade em Trujillo
20/01/2018 22:35 20/01/2018 22:37

HO - Osservatore Romano/AFP
Papa em visita a Trujillo, no Peru
Em seu segundo dia de visita ao Peru, o papa Francisco visitou neste sábado (20) Trujillo (norte), onde a recepção entusiasmada das pessoas contrastou com a frieza com a qual foi recebido no Chile.

Em sua primeira missa no Peru, diante de 200 mil pessoas em uma praia da cidade histórica de Huanchaco, paraíso de surfistas, 590 km ao norte de Lima, onde se amarram os "caballitos de totora" - embarcações tradicionais de pescadores em forma de canoa -, o incansável papa argentinou foi saudado e recebeu o carinho das pessoas.

"Viva Francisco! Viva o papa! Viva Cristo!", gritavam ao som da música que saía dos alto-falantes. O entusiasmo do povo chegou quando o pontífice enumerou todos os santos locais venerados nesta parte do norte do país, onde a devoção é particularmente intensa.

Em sua homilia, condenou a "insegurança", a "violência organizada" e a "pistolagem" que mortifica essa região, atingida no ano passado pelas chuvas do fenômeno climático "El Niño costeiro", que deixaram mais de 130 mortos e cerca de 300 mil danificados.

Estas outras "tormentas", as do crime organizado, "nos questionam como comunidade e colocam em jogo o valor de nosso espírito".

Em meio à esperança de que sua presença possa realizar um milagre e contribuir para mudar o abandono em que se encontram, Francisco foi reconfortar os moradores do bairro de Buenos Aires, um dos mais atingidos pelas chuvas e pelos deslizamentos, que um ano depois espera ser reconstruído.

"Estamos esperando para ver se o papa traz bençãos e se pode conquistar tudo o que perdemos, que traga misericórdia", disse Lidia García.

O papa percorreu rapidamente no papamóvel as ruas enfeitadas deste bairro homônimo de sua cidade natal, Buenos Aires.

O papa também convocou a luta contra outra "praga", a do feminicídio, dirigindo-se a uma região, a América Latina, onde fica a metade dos 25 países que registram o maior número de assassinato de mulheres no mundo, segundo a ONU.

"São muitas as situações de violência que ficam silenciadas atrás de tantas paredes. Convido-os a lutar contra essa fonte de sofrimento, pedindo que se promova uma legislação e uma cultura de repúdio a toda forma de violência", disse o papa, sob os aplausos de milhares de fiéis que se concentraram na praça da cidade conhecida como aquela da eterna primavera para uma celebração mariana, antes de voltar para Lima.

Apesar da agenda apertada, o pontífice também se reuniu com sacerdotes e religiosos aos quais pediu para combater a arrogância e a vaidade "rindo-se de si mesmos".

"O riso nos salva do neopelagianismo auto-referencial e prometeico de quem no fundo só confia em suas próprias forças e se sentem superiores a outros", repetiu.

Diferentemente do Chile, o país mais hostil da América Latina à Igreja Católica, onde o papa se viu envolvido na polêmica por sua defesa de um bispo acusado de acobertar um sacerdote condenado por abusos sexuais contra menores de idade, Francisco recebe uma recepção muito calorosa no Peru.

Lima foi adornada com cartazes de boas-vindas ao papa argentino, que sentiu o carinho e a devoção dos peruanos por onde passou.

O papa encerrará sua sexta viagem à região neste domingo, com uma missa multitudinária - espera-se a presença de cerca de um milhão de pessoas - na base aérea de Las Palmas, arredores de Lima, antes de voltar para Roma.


A primeira visita que um papa faz ao Peru em mais de trinta anos teria sido de denúncias. Francisco não hesitou em condenar a destruição da Amazônia, o pulmão do planeta, pela mineração ilegal, assim como o tráfico de seres humanos que, disse, não é outra coisa que "escravidão" e a violência contra as mulheres nesta região aonde o Estado não chega.

Além disso, condenou a corrupção em um país, onde um ex-presidente - Ollanta Humala - está em prisão preventiva, sobre outro pesa uma ordem de extradição - Alejandro Toledo - e o chefe de Estado atual, Pedro Pablo Kuczynski, esteve a ponto de ser destituído pelo Congresso, todos por supostamente terem recebido dinheiro da empreiteira Odebrecht. O papa criticou o flagelo do "vírus da corrupção" que "infecta tudo".

"Quanto mal faz a nossos povos latino-americanos e às democracias deste bendito continente esse 'vírus' social, um fenômeno que infecta tudo, sendo os mais pobres e a Mãe terra os mais prejudicados", disse o papa na recepção oferecida pelo presidente, no palácio do governo em Lima.

Kuczynski, presente a este sermão, esteve prestes a ser destituído em dezembro por mentir sobre suas ligações com a empreiteira no governo de Alejandro Toledo (2001-2006), sobre o qual pesa uma ordem da Justiça peruana para ser julgado no país também por corrupção no mesmo caso.

Mas com sua salvação chegou sua condenação. Kuczynski, de 79 anos, se salvou graças ao apoio do grupo de Kenji Fujimori. A maioria dos peruanos acredita que isso seu deu em troca do indulto a seu pai, Alberto Fujimori, que cumpria 25 anos de prisão por corrupção e crimes contra a humanidade.


Jornal de Gramado
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