
Ivoti - Gramado e Ivoti são municípios rotulados pela boa qualidade de vida que oferecem. O primeiro é uma cidade turística, com cerca de 32 mil habitantes. O segundo, apesar da proximidade com o Vale do Sinos e Região Metropolitana, ainda resguarda ares de interior e possui pouco menos de 20 mil moradores. Ambos têm em comum o fato de terem sido selecionadas para o projeto Pró-Família. A iniciativa começa a ser desenvolvida em 11 municípios gaúchos pela Organização das Nações Unidas (ONU) com uma simples meta: organizar o desenvolvimento do futuro destas cidades a partir da família.
O consultor da ONU responsável pela implantação do Pró-Família no Rio Grande do Sul é o gaúcho doutor em Sociologia da Família Marco Antonio Fetter. Desde novembro do ano passado, o consultor vem formatando este projeto junto às prefeituras. “Estamos organizando um núcleo de estudos na cidade para disseminar a reflexão perante o papel da família junto à sociedade”, explicou Fetter.
Em Ivoti, o trabalho envolve as secretarias de Educação e Cultura e de Saúde e Assistência Social, além do Departamento de Assistência Social, e deverá agregar ainda Ministério Público e outras entidades do município. Ao longo do projeto, Fetter deverá aprofundar o perfil da família ivotiense, bem como tratar aspectos sobre drogas, casamento, limites e escola, além de planejamento familiar e a criação do Conselho Municipal da Família.
Instituição em alta
Num mundo com 7 bilhões de habitantes, em que a cada duas pessoas que se alimentam, três passam fome, e com cidades cada vez maiores – com focos crescentes de problemas como violência e drogas –, Fetter vê no planejamento familiar uma das soluções. “É fundamental trabalhar as famílias. A família é a base de tudo. A família somos nós.” O representante da ONU afirma que a instituição família não está e nunca esteve em crise. “Quando um casamento não dá certo não é a família que está em baixa. É o casal que está em crise.” O trabalho que será desenvolvido em Ivoti e Gramado, de acordo com Fetter, é revitalizar essa instituição, para que boas virtudes venham de casa e ajudem numa cidade melhor. “Se você não quer que o mundo não seja corrupto, você não pode ser dentro de casa”, exemplifica.
É na refeição que os Barbieri se reúnem

Foto: Gabriel Guedes/GES-Especial
Os Barbieri deixaram Erechim, norte gaúcho, no começo dos anos 2000, rumo ao Vale do Sinos para ficar mais próximos dos negócios da família. Em Ivoti, onde moram desde 2003, encontraram o ambiente ideal para que se desenvolvessem sem que se deixasse de lado hábitos que tornam a convivência entre pais e filhos harmônica. “Aqui em Ivoti encontramos qualidade de vida, boas escolas, bom serviço público e especialmente, aquela coisa da ‘vida de interior’”, argumenta a matriarca, Marfisa Barbieri, 48 anos, ao explicar que essa “vida de interior” possibilita que todos façam suas refeições juntos, quando possível. A filha mais velha, Natália, 21, estuda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em Porto Alegre.
A família Barbieri é como qualquer outra, com momentos de animosidade e outros de tranquilidade. “Conversando tudo se resolve”, frisa o chefe da família, Jeferson Barbieri, 48, que acredita na instituição como o centro de tudo. “É o núcleo”, reforça o empresário.
Além de prezar pelo diálogo, os Barbieri se unem na organização da casa. “Eu lavo a louça”, conta Renata, a filha de 14 anos. “Eu faço o suco”, acrescenta o caçula, Tomás, 10. Natália completa, compilando a regra familiar. “Quem cozinha não lava, que lava não seca”, reforça. No entanto, Marfisa faz uma ressalva. “Mas nem sempre é assim. Às vezes temos que lembrá-los das tarefas”, brinca a mãe. “Família é isso”, conclui Jeferson.
Temática que merece atenção em todos os lugares
Marco Antonio Fetter é gaúcho de Farroupilha, graduado em sociologia em 1976 pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), mestre em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e doutor em Sociologia da Família pela Universidade de Deusto, em Bilbao, na Espanha. Fetter, hoje consultor da ONU para o Brasil em Assuntos de Família, tem a missão de transportar o que durante muito anos foi tratado sob a ótica da ciência para o dia a dia das pessoas.
Conforme o consultor, a melhor maneira de perceber uma cidade é conhecendo as pessoas, por consequência, se aproximando da família. “É uma temática que merece ser trabalhada em todas as cidades do Brasil. A família é onde tudo começa”, frisa o doutor.

Foto: Gabriel Guedes/GES-Especial
A escolha de Fetter
Após estudo prévio, em que detectou em Ivoti um perfil de comunidade em crescimento mas com a família ainda preservada, Fetter apontou a cidade, junto com outras dez do Estado, a ter sequência no Pró-família.
A herança deixada pelos imigrantes
Na história de Ivoti, não há como não fazer referências às famílias de imigrantes alemães e japoneses. São famílias com peculiaridades que, segundo Marco Antonio Fetter, são mantidas até os dias atuais.
Conforme o pesquisador, os alemães têm a cultura da família muito forte. “O núcleo central é o casal, mas há uma organização interna robusta. Também há a tradição de uma educação rigorosa”, explica Fetter. “É uma família da casa para fora, mais aberta”, complementa. A família nipônica, no entanto, se diferencia da germânica ao priorizar muito o trabalho. “Os japoneses cultuam muito o trabalho. Valorizam tanto quanto a família, quase no mesmo nível. Também são mais fechados”, coloca, em linhas gerais.
Até mesmo catarinenses, maioria oriunda do Oeste, encontraram em Ivoti, anos mais tarde, a oportunidade para trabalhar na indústria calçadista. Mas suas características, assim como a dos alemães e japoneses, necessitam de novos estudos para aprofundamento.
Família cooperativada