
São Leopoldo - Após a Justiça conceder a tutela antecipada dos 350 cachorros e 25 gatos da moradora do bairro Campestre e aposentada Marina Cândido Pereira, 74, ao Centro Municipal de Proteção Animal (Cempa), o diretor do canil, Fábio Almeida, está tentando desde o dia 20 de agosto, com a Procuradoria Geral do Município, obter um prazo de 60 dias para organizar a estrutura e as contas do abrigo municipal. A notificação foi enviada pela 4.ª Vara Cível e é a decisão final do processo aberto por ex-voluntários contra o abrigo particular por maus-tratos. A aposentada poderá ficar com apenas cinco animais. À Prefeitura, caberá recolher os outros e abrigá-los, caso contrário será multada em R$ 500,00 por dia. A decisão complica a situação do canil municipal, que já está lotado.
Ex-voluntários
A técnica em enfermagem, Solange Biegelmeyer, 30, foi a última voluntária de Marina e trabalhou no tratamento dos animais até julho deste ano, quando serviu de testemunha junto com outros dez ex-voluntários. "Começamos a perceber uma situação desagradável no local. Animal doente junto com saudável, mortos misturados com vivos e a falta de limpeza", contou ela.
O veterinário Gustavo Carvalho, 29, chegou a castrar, junto com um grupo de seis outros veterinários, 150 animais criados pela aposentada. Ele classifica a situação do canil particular como deplorável. "Você sai de lá desanimado", afirmou o veterniário, que também testemunhou no processo.
Cempa pedirá auxílio da Brigada Militar
Preocupado com a segurança e a saúde da aposentada, Fábio Almeida, diretor do canil municipal de São Leopoldo, pedirá o apoio da Brigada Militar e de uma ambulância do Samu durante a retirada dos animais, que ainda não tem data para acontecer. Segundo ele, atualmente 340 animais estão no canil municipal, sendo que o abrigo tem estrutura para 250.
Marina quer recorrer
Marina cria os animais no local há mais de oito anos e deve recorrer da decisão da Justiça. Para cuidar deles, muitas vezes ela precisa da ajuda de voluntários, protetores de animais e doações de ração.
De acordo com ela, os animais que arbiga consomem cerca de 75 quilos de alimento por dia. "As pessoas me entregam cachorro e gato porque sabem que aqui vai ser bem cuidado. Todos que chegaram aqui doentes ou machucados, agora estão saudáveis, porque receberam carinho, alimento e medicação", contou Marina, garantindo que não vai permitir que os animais sejam retirados de sua casa. "É a minha família. Não vou permitir que ninguém entre na minha casa e os leve."
Entrevista
Jornal VS - Quando será feita a remoção?
Fábio Almeida - Estou tentando pedir um prazo de 60 dias para a Procuradoria Geral do Município. Já mandei um memorando para eles, mas ainda não tive resposta.
VS - Como será feita a retirada?
Almeida - Primeiro vou pedir o apoio da Brigada Militar, para fazer a segurança no local e do Samu, já que a dona Marina é uma senhora bem idosa. Não conseguiremos fazer a remoção de todos os animais em apenas um dia. A distância entre a casa dela e o canil é muito grande. Alguns voluntários querem ajudar e levar alguns cachorros e gatos para adoção. Caso a Justiça permita, aceitaremos a ajuda. Vamos deixar que levem o maior número possível.
VS - De que forma o Cempa está se preparando para receber os 375 cachorros e gatos?
Almeida - Estamos pedindo este prazo de dois meses justamente para organizar a estrutura. Espaço o canil tem, cerca de dois hectares, mas não significa que estamos bem estruturados para receber essa grande quantidade. Além disso, o canil já está lotado. Podemos abrigar 250 animais e estamos cuidando atualmente de 340. No dia da remoção, vamos desmontar o canil dela e trazer as gaiolas e cercas para montar no nosso terreno.
VS - E financeiramente, como será?
Almeida - Hoje gastamos R$ 7 mil reais por mês com ração. Claro que este valor vai dobrar, caso a Justiça não permita que os voluntários levem alguns. Além disso, tem também o material de cirurgia, castração e medicamentos. Esse gasto extra que teremos poderia ser aplicado na reforma e melhorias que estão sendo feitas, como a manutenção nas baias.
VS - A Prefeitura poderia ter impedido a Dona Marina de criar tantos animais?
Almeida - A Prefeitura é responsável pelo canil há apenas um ano. Qual era a prioridade? Quando chegamos a situação era bem difícil. Não podíamos abraçar tudo. Hoje, estamos castrando cerca de oito cachorros por dia. São animais de rua e de famílias de baixa renda. Fizemos um mutirão nas famílias que foram removidas do Arroio Kruse para a Feitoria.
Foto: Roberto Vinicius/GES