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26 de Julho de 2012 - 11h22

Crítica: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Por Ulisses da Motta Costa

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BATMAN: O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE (The Dark Knight Rises). Direção de Christopher Nolan. Roteiro de Jonathan Nolan e Christopher Nolan sobre história de Christopher Nolan e David S. Goyer, baseado nos personagens criados por Bob Kane. Com Christian Bale, Gary Oldman, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway, Marion Cottilard, Morgan Freeman, Michael Kane.

Christopher Nolan, por favor, continue lançando um filme a cada dois anos! Desde quando tu começaste com esta média de produção, nossas vidas ficaram mais felizes e brilhantes -- ao ponto de esquecermos por algum tempo que Hollywood vive um dos seus momentos mais medíocres em termos de criatividade e qualidade.

Após o agradecimento ao diretor britânico, uma confissão: as obras de Nolan (A Origem, O Grande Truque, Batman Begins, Batman: O Cavaleiro das Trevas, Amnésia) me desafiam a escrever. Talvez porque o universo de filmes lançados hoje não exija muito da nossa inteligência e perspicácia e estejamos, aos poucos, ficando preguiçosos. Mas o fato é que eu tenho a impressão que eu teria que ver Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge mais uma vez para captar mais nuances e visualizar seus conceitos de maneira mais completa. Vamos ver se desempenho bem a tarefa tendo-o visto apenas uma vez.

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O filme é ambientado oito anos depois dos eventos de Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008). Neste período, Bruce Wayne (Christian Bale) aposenta o uniforme e passa a viver como um recluso na sua mansão. No entanto, Gothan City parece viver em aparente paz, já que a agressiva política policial do comissário Gordon (Gary Oldman) limpoau a cidade do crime organizado. Contudo, um misterioso mercenário, o mascarado Bane (Tom Hardy), arma um plano para atacar a cidade -- plano que envolve uma habilidosa ladra de joias, Selina Kyle (Anne Hathaway).

Muito mais do que isso, porém, não dá para se revelar. Isso porque o roteiro (escrito pelo diretor e pelo seu irmão e melhor colaborador, Jonathan Nolan) tem um ritmo vigoroso e que apresenta situações surpreendetes a cada ato. O filme tem nada menos que 2 horas e 45 minutos de duração, mas o caro leitor pode ficar tranqüilo: a história que ele conta precisa mesmo ser longa. O que se pode dizer é que há grandes reviravoltas em pontos-chave da projeção que deixam o espectador na ponta da cadeira.

Por falar em reviravoltas, neste Batman os irmãos Nolan exercitam uma das suas melhores qualidades, que é levar a audiêcia a achar que descobriu algum mistério para ser pego de surpresa logo adiante. Eles gostam do espectador inteligente que pensa durante o filme: parece que estamos sacando um mistério, apenas para notarmos depois que os roteiristas nos levaram a pensar numa direção errada para encobrir os reais segredos sobre os personagens e suas motivações. O que era maestria narrativa em O Grande Truque (o meu preferido de Nolan, por sinal) aqui é reprisado de maneira mais econômica, mas nem por isso menos eficiente. 

Outro trunfo da escrita é o fechamento perfeito do conceito de trilogia. Numa época em que Hollywood vulgarizou o conceito de tríptico, em que qualquer filme bem-sucedido vira saga, os Nolan conseguem casar eventos ocorridos (e não raro, esquecidos) dos seus dois Batman anteriores numa costura perfeita que chega a emocionar pela elegância. Podemos dividir o filme em duas metades: a primeira trata do legado de O Cavaleiro das Trevas; a segunda, de um resgate do que ocorreu em Batman Begins. As pontas (que não imaginávamos que estavam soltas) são presas de tal forma que... Bem, parece que os cineastas desde sempre pensaram em uni-las, desde o filme de 2005.

Interessante é notar que, na primeira meia hora de filme, temos a impressão que o roteiro vai se perder com os muitos personagens que apresenta como importantes. Além dos vilões e de figuras importantes dos outros filmes (feitos pelos veteranos Michael Cane e Morgan Freeman), ainda temos o jovem policial vivido por Joseph Gordon-Levitt e a empresária feita pela francesa Marion Cottilard. Contudo, todos eles acabam sendo justificados até o final da projeção.

Não que o roteiro não tenha aqui e ali uma que outra coisa questionável -- o triângulo romântico formado por Batman e a Mulher-Gato com a personagem de Cottilard não fica muito natural -- e há algumas soluções mágicas -- um personagem está no outro lado do mundo, sem recursos aparentes, e aparece logo em seguida de volta a Gothan. Contudo, estes momentos estão longe de parecer furos. Antes, são decisões para não afetar a escala épica de dramaticidade que a narrativa possui ao se parar para explicar algo de menor importância. Não é uma escrita tão redonda quanto a de O Cavaleiro das Trevas (este sim, impecável), mas é um trabalho sensacional.


Quanto à caracterização dos personagens, vale destacar o Bane de Tom Hardy e a Mulher-Gato de Anne Hathaway. Mesmo com uma máscara que limita quase a totalidade das suas expressões, Hardy usa sua postura cênica, seu olhar e uma voz amplificada pela edição de som para ser uma ameaça física e intelectual real a Batman. Já a Mulher-Gato é tratada com cuidado pelos realizadores. Afinal, ela é um elemento mais cartunesco na ambientação realista que Christopher Nolan dá ao universo do herói. Assim, ela nunca é designada pelo apelido, mas sim pelo nome da personagem, Selina. E Anne Hathaway diverte-se com o lado dominatrix da personagem, fazendo-o de maneira calculada e sóbria, como se Selina planejasse parecer uma super-fêmea, quando na verdade ela não é.

E eu aqui, a gastar parágrafos com o roteiro e sem mencionar o restante dos elementos do filme. Podem ter certeza, poderia ficar outras tantas linhas discorrendo sobre cada um deles. Como diretor, Nolan orquestra a ação de maneira magnífica, usando efeitos digitais de maneira sutil e naturalista e, mais uma vez, usando o formato Imax para dar um gigantismo maior às cenas -- o assalto ao avião no início e a batalha final (em especial as tomadas com o Morcego, veículo aéreo revelado rapidamente dos trailers) são eletrizantemente reais e mostrados numa magnitude incrível.

A sensação de empolgação é devidamente auxiliada pelo grande trabalho de som e música que ouvimos. A edição de som é magnífica -- não só no já citado trabalho na voz de Bane, que invade as cenas de maneira opressiva, mas também no som dos equipamentos, em especial os ruídos do Morcego. Na trilha, Hans Zimmer aproveita o tema criado por ele e por James Newton Howard em Batman Begins de maneira mais épica -- o ótimo uso da música no filme lhe dá uma dimensão ainda maior ao grande drama contado pelo cineasta.

Como uma ópera (e o adjetivo “operístico” cabe bem a esta trilogia), Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge tem árias fabulosas e termina majestosamente, num ápice emocional longe do que costumamos ver em filmes de super-herói. E a montagem final do destino dos principais personagens (que tem ainda cena linda com Michael Cane) dá um arrepio na espinha. Porque Nolan termina sua ópera audiovisual respeitando os conceitos de seguir em frente e recomeçar presentes durante todo o filme. A trilogia fala de Ascenção-Queda-Redenção (é uma boa assistir aos dois títulos anteriores antes de ir ao cinema) -- e ascender, cair e se redimir (e daí se criar espaço para novas histórias) são situações que os personagens vivem de diferente formas.

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filmaço. Sem mais, o melhor blockbuster do ano, e desde já um dos melhores filmes de 2012.

Observação: não comentei o episódio do massacre no cinema no Colorado durante o texto, e nem farei um texto sobre isso. Acho triste o tipo de capitalização que se faz em torno deste tipo de episódio. O que importa, aqui, é que este é um grande filme. 

Observação 2: uma das especulações dos fãs era a presença do Coringa neste filme. É a única coisa que me atrevo a revelar: o vilão nem mesmo é citado, numa escolha respeitosa de Nolan em memória à morte prematura de Heath Ledger.

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