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Comportamento

Primeiro contato dos adolescentes com bebida alcoólica é dentro de casa, mostra pesquisa

Mestre em Desenvolvimento e Saúde ouviu 810 estudantes de 14 a 17 anos de escolas de ensino médio da região

“A primeira vez que bebi foi em casa, para experimentar, foi meu pai quem ofereceu”, conta o adolescente de 17 anos durante o intervalo entre as aulas em uma escola de ensino médio da região, com a atenção dividida entre os fones de ouvido, a conversa com os amigos e as perguntas da repórter. “Tudo começa em casa”, confirma a colega de 16 anos, sentada à frente. “Bebo bastante”, confessa aos risos, ainda a dois anos de alcançar a maioridade e, por consequência, a permissão legal para consumir bebida alcoólica no País. “Mas melhor beber em casa do que na rua”, completa. Dos cinco adolescentes no grupo, apenas dois dizem não consumir nada alcoólico, por “não ter pressa nenhuma”, mas não foi uma nem duas vezes que viram os amigos bêbados nas festas e já até ficaram de babá de quem bebeu demais. “Nas festas todo mudo leva, vodka, cerveja. Pra conseguir é fácil, tem alguns mercados que pedem a identidade, mas a maioria nem pergunta nada”, diz uma das meninas. Para outra colega, a bebida não é tão presente assim, “só no fim de ano com a família”. É a pilha dos amigos, no entanto, que os faz encher os copos. “Ah, é da emoção, tá todo mundo conversando, é o momento”.

Em outro grupo perto dali, um adolescente de 15 anos diz que a única experiência com bebida alcoólica foi uma mistura de limão com vodka, vendida no mercado com uma opção mais suave, oferecida pelo pai, “para saber como é”. O amigo ao lado, de 16 anos, confessa já ter bebido algumas vezes, mas jura que nunca passou mal. “Todo mundo está bebendo, a gente acaba bebendo também”. O terceiro menino no grupo, também de 16 anos, se esquiva para responder quais os tipos de bebida já consumiu. E os amigos, aos risos, listam uma série de fermentados e destilados.

A adolescente de 17 anos que passa a seguir no corredor já tem seus gostos bem definidos. “Gosto mais de cerveja, mas o pessoal gosta mais de vodka misturada com outras coisas”, diz, contando que aprendeu a beber em casa. “Sou responsável, bebo com moderação e nunca passei mal. Tem gente que bebe porque quer se achar o tal. A gente vive em uma sociedade em que, entre os adolescentes, é bonito beber, fazer fiasco. Acham bonito”.

Pesquisa

Não foi preciso mais do que um intervalo entre as aulas para comprovar o que aponta pesquisa feit apela mestre em Saúde e Desenvolvimento Humano pela Unilasalle Simone Machado Walter, que ouviu 1.330 estudantes de 14 a 17 anos da região e relaciona álcool, drogas ilícitas e o conhecimento de HIV/aids em adolescentes. Segundo o levantamento, 39,2% consomem bebida alcoólica, sendo que 51,23% tiveram o primeiro contato com a bebida dentro de casa. “Me surpreendeu o quantitativo de alunos que começaram a experimentar pelos pais”, diz. O consumo de maconha, crack e outras associações ilícitas foi citado por 13,70% dos entrevistados. Por ser legalmente aceito, o álcool acaba recebendo o aval da família para o consumo. O problema que surge daí, além dos efeitos físicos, é a redução na capacidade de julgamento do adolescente, que pode acabar se colocando em situações de risco, completa o orientador de Simone no trabalho, o professor Alexandre Ramos Lazzarotto. “Temos um problema e precisamos discutir isso com a comunidade. Quando o jovem não está lúcido, orientado e coerente se expõe a uma situação de vulnerabilidade”, enfatiza.

Álcool interfere na capacidade de se cuidar

A pesquisa também relacionou consumo de bebida alcoólica com a transmissão do vírus causador da aids. “O consumo de álcool está associado com o HIV porque interfere na capacidade do adolescente de se cuidar e isso envolve a relação sexual desprotegida”, alerta Lazzarotto. O professor observa que os avanços no tratamento à aids, embora positivos, acabam causando uma falsa impressão de tranquilidade. “É uma doença tratável, mas não é fácil, envolve medicações que trazem ônus ao paciente e efeitos adversos. E sem essas medicações não existe expectativa de vida para HIV. O objetivo é manter a carga viral no menor patamar possível”, alerta.

As respostas relacionadas a conhecimentos sobre HIV/aids chamaram a atenção de Simone e do orientador. Apenas 45,4% dos estudantes concordaram totalmente que o HIV é o transmissor da aids; 27,8% ficaram em dúvida se o vírus da aids pode ser transmitido por abraço, beijo no rosto, beber no mesmo copo e chimarrão (não são formas de transmissão) e 52% acham que o vírus é transmitido por meio de picada de mosquito (também não é forma de transmissão). Além disso, apenas 43,8% concordaram plenamente que quem usa camisinha nas relações sexuais impede a transmissão do vírus. “O adolescente tem muita informação, muito acesso à tecnologia, mas há uma dificuldade em filtrar o que é importante ou não”, observa Lazzarotto.

Para 69,14% dos entrevistados é importante discutir assuntos relacionados a comportamento e consumo de drogas e 31,58% disseram que gostariam de conversar sobre o tema com profissionais da saúde. “A gente comentou muito da importância da enfermagem estar nas escolas, fazendo essa orientação, que seria uma medida a longo prazo. A população precisa disso”, acrescenta Simone.

Riscos e benefícios

O efeito do álcool no organismo do adolescente é diferente do que em um adulto, porque o jovem ainda está em fase de desenvolvimento cerebral – que vai do nascimento até por volta de 20 a 25 anos de idade. Depois disso, o cérebro continua se alterando, mas não mais no sentido de desenvolver. “O que acontece na prática é que o álcool estará alterando a capacidade de autocontrole, prejudicando a capacidade de controle do álcool e do próprio comportamento do adolescente”, explica o psiquiatra da infância e adolescência Thiago Gatti Pianca, participante do Painel de Álcool e Adolescência no X Congresso Gaúcho de Atualização em Pediatria, realizado pela Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul.

Ele explica que a parte do cérebro que se desenvolve por último é também uma das mais evoluídas, o córtex pré-frontal, que regula o comportamento inconsciente. “É o que diz ‘vou fazer isso’, ‘não vou dar bola pra isso’, ‘isso é perigoso’, é o juízo, em outras palavras. Como é uma das últimas partes, quando o adolescente bebe, ela pode não se desenvolver tão bem. Se desenvolver 70% desta área, estes outros 30% vão fazer falta em alguns momentos, como na capacidade de decidir o que fazer”, destaca. Segundo Pianca, o consumo de bebida alcoólica interfere diretamente no aumento da sensação de invulnerabilidade, já típica do comportamento adolescente. “É assim porque o cérebro não está acostumado a avaliar riscos e benefícios. O adolescente que bebe é mais impulsivo pela ação do álcool, não se dá conta dos problemas. Se tiver uma relação sexual, vai ignorar coisas como usar preservativo e se coloca numa posição de maior risco”, observa.

Saiba mais

  • O Rio Grande do Sul é o Estado campeão no consumo de álcool na adolescência, conforme a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2015
  • 68% dos alunos do 9º ano do ensino fundamental no Rio Grande do Sul já experimentaram bebida alcoólica uma vez
  • No Brasil, o índice é de 55,5% dos jovens nesta faixa

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