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Luiz Coronel

Pensando em voz baixa

"O grande problema me parece a ausência de um banco de reservas. Jogamos com uma seleção de safados"
01/10/2017 06:20

Luiz CoronelLuiz Coronel é poeta
www.luizcoronel.com.br

Pensar é não sentir o sumo das laranjas. Tenho pensado demais em meu País, os noticiários me afligem e não me confortam. Baixo o som do televisor e fico percebendo aquelas bocas exalando patriotismo, mas sempre com aquele olhar safado de quem esconde o dinheiro do povo em malas, contas no exterior, paredes falsas. E não há como transferir culpas: este abismo existente entre o País possível e o País real, deve-se, em dosagem quase absoluta, à classe política, às oligarquias, aos “donos do poder”, como foram designados por Raimundo Faoro.

E não adianta afogar as lágrimas. Elas aprenderam a nadar. O grande problema me parece a ausência de um banco de reservas. Jogamos com uma seleção de safados. Eles fecharam o cerco. Além, muito além das legendas partidárias, está o código secreto, o córrego sigiloso, a aliança espúria, por onde escorre o fluxo livre das propinas, das comissões, dos superfaturamentos. A caverna de Ali Babá foi arrombada. Os larápios saíram dos esconderijos revelados pela Lava Jato. Se não forem punidos, estará oficializada a gandaia geral e legitimada.

Eu fui ingênuo quando acreditei... assim começa um chorinho deslumbrante do Pixinguinha, que com sobrada razão autodefinia-se: “Eu sou um poema”. Pois eu acreditei que aquela escolha do elenco de encardidos ministros do presidente Temer encontraria capenga, mas justificável explicação na necessidade de uma maioria parlamentar. Hoje, me cerco de dúvidas se tal montagem ministerial não repousava num convênio grotesco de partilha de verbas espúrias. Temer será absolvido pelo parlamento, tudo indica. Porém, cada vez que o presidente pintar nas telas da TV, procuraremos vestígios de algo de humano e nada encontraremos. Com o tempo, a alma vem para o rosto.

O ex-presidente Luiz Inácio da Silva chutou o balde. Como disse Jaques Wagner, liderança exponencial do Partido dos Trabalhadores: “O PT se lambuzou”. Suas lideranças teimam na afirmação repetida e enfadonha de que tudo não passa de uma perseguição política. Mas os fatos detêm formas, contornos, pesos e medidas. A mim, eleitor de Lula, compete apenas suspirar: que lástima! E voltar a certeza de que “o homem não cria problemas que ele próprio não possa resolver”. O ano de 2018 poderá ser a hora e a vez de um sereno julgamento. Não podemos deixar que a esperança se transforme em cinzas.


Jornal de Gramado
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